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segunda-feira, 21 de setembro de 2009

The S&P Case Shiller Index - IV

Deixo-vos aqui cópia integral do artigo que escrevi para a edição do SIL da Revista Imobiliária.

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O índice S&P Case-Shiller mede a variação de valor do mercado residencial norte-americano em 20 regiões distintas nos Estados Unidos da América.

O índice foi construído a partir de um trabalho de research, no início dos anos 80, levado a cabo por Karl E. Case e Robert J. Shiller, baseado numa metodologia de cálculo das variações de valor no mercado de habitação norte-americano. Essa metodologia consiste em fazer um tracking dos preços de venda de habitações unifamiliares em certas regiões do país, sendo registadas todas as vendas e posteriores revendas dessas mesmas habitações.

Posteriormente, são expurgadas determinadas transacções que possam distorcer o cálculo final do índice, tais como, execuções de hipotecas (em americano, foreclosures), vendas entre familiares (non-arms length transactions) e outros eventuais erros que possam ocorrer, nomeadamente quando se verificam oscilações de valores substancialmente diferentes de todas as outras ocorridas nas mesmas regiões.

Inicialmente, foram cobertas 10 regiões, tendo o índice sido alargado para 20 regiões desde Janeiro de 2000. É calculado numa base mensal e publicado com um delay de dois meses.

Olhando para o índice no longo prazo, podemos verificar pelo gráfico que se segue que este registou uma forte estagnação que durou cerca de 7 anos, durante a década de 90. Só já em 1998, o índice iniciou uma subida que o levou a valorizar quase 3 vezes em apenas 8 anos.

Historicamente, o S&P Case-Shiller é um índice pouco volátil, que sempre apresentou significativa estabilidade no seu valor. Entre 1987 e 1997, o índice valorizou 31%, ao passo que entre 1998 e o pico de 2006, a subida foi de quase 175%. Este período mais recente caracterizou-se, de facto, por um boom no mercado residencial norte-americano.

Os dados mais recentes, reportados ao mês de Junho de 2009, mostram que o ritmo de queda dos valores de habitação nos Estados Unidos parece estar a abrandar, tendo o índice registado já subidas em Maio e Junho, de 0,5% e 1,4%, respectivamente.

Já desde Julho de 2006, altura em que o índice registou o seu máximo histórico, que o índice não registava qualquer subida, quanto mais em 2 meses consecutivos. Logo, estas subidas, apesar de ténues, devem ser salientadas.

Depois do máximo registado no final do 1º semestre de 2006, o índice já desvalorizou mais de 31% em quase 3 anos, estando agora a cotar a valores de Junho de 2003. No entanto, a variação homóloga continua bastante negativa, tendo o índice descido -15,4% face a Junho de 2008.

Recentemente, vi uma entrevista com Robert Shiller, um dos fundadores do índice (podem também vê-la em www.outofthebox.com.pt) na qual ele refere que esta recente subida é, sem dúvida, um bom sinal para o mercado de habitação. Diz ele que os preços subiram tanto que atingiram valores pouco condizentes com o activo em questão.

Para termos uma ideia mais concreta, no topo do mercado em 2006, o mercado de habitação norte-americano apresentava uma yield implícita (medida pelo múltiplo renda vs. valor) de 3,5%, demasiadamente baixo, inclusivamente mais baixo que os principais benchmarks de dívida pública! Historicamente, este múltiplo sempre se situou entre os 7,5% e os 8%, logo esta forte correcção e agora posterior equilíbrio no índice deve ser considerado normal.

A questão que agora se coloca é esta: o mercado tomará uma formação em V (com uma subida consistente e constante a partir de agora), ou antes uma formação em U (com uma recuperação mais ou menos longa, mais ou menos penosa)? Robert Shiller diz que tudo dependerá da economia mundial e norte-americana e do sucesso das políticas governamentais que estão (ainda) a ser aplicadas. No entanto, Robert Shiller acredita ainda em futuras quedas no índice.

Pessoalmente, a leitura que faço desta ténue recuperação do índice está intimamente ligada ao Plano Obama de refinanciamento das hipotecas mas, sobretudo, de financiamento dos montantes de negative equity no mercado habitacional norte-americano. Este “súbito acréscimo” de financiamento no mercado, mas fundamentalmente, de financiamento da componente negativa do património (ou seja, a diferença negativa entre o valor de mercado da habitação e a sua dívida) conseguiu estancar a “sangria”. Mas esta é uma medida localizada e não duradoura, pelo que quando o fresh equity voltar ao mercado, fá-lo-á porventura por valores mais baixos.

Por outro lado, o desemprego tem vindo a subir fortemente e não se espera que sofra agora um decréscimo, bem pelo contrário. Apesar dos últimos dados do desemprego norte-americano terem sido encorajadores, é expectável que surjam mais falências e downsizes nas empresas, e estes movimentos têm reflexo imediato no mercado de habitação, pela menor capacidade das famílias fazerem face às prestações de créditos à habitação.

Olhando agora um pouco para a realidade análoga Portuguesa, centremo-nos no valor médio de habitação bancária, calculado e divulgado pelo Instituto Nacional de Estatística (INE). De acordo com o INE, «O Inquérito à Avaliação Bancária na Habitação (IABH) recolhe informação caracterizadora dos alojamentos que são objecto de financiamento bancário e em cujo processo há lugar a uma avaliação técnica de cada imóvel. Assim, os seus resultados são representativos para o universo de alojamentos em que há recurso a esse meio de financiamento. A utilização desta informação deve ter em conta o facto das estimativas dos valores de avaliação dos alojamentos poderem reflectir parcialmente variações qualitativas das habitações avaliadas em cada período.»

Optei por transcrever esta definição do INE para termos noção que se trata efectivamente de um valor que resulta de uma avaliação imobiliária pedida pelos bancos que concedem crédito à habitação. Por esta razão, tenho a percepção que se deve “dar algum desconto” a este valor. No boom do crédito imobiliário e na ânsia de conceder crédito, os bancos procuravam inflacionar os valores de avaliação por forma a que estes fossem superiores ao valor de transacção. Assim, podiam emprestar o dinheiro necessário à compra da habitação, apresentando internamente rácios loan-to-value (LTV) dentro das suas políticas de financiamento. No entanto, na prática tínhamos LTV’s muito elevados (muitas vezes, superiores a 100%), quando comparados com o valor de transacção e não o valor de avaliação.

Tenho a ideia – e alguma certeza pelas conversas que tenho com alguns banqueiros – que o inverso ocorre agora. Os bancos concedem agora menos crédito e “procuram” que os valores de avaliação sejam inferiores aos valores de transacção. Desta forma, aplicando LTV’s ainda inferiores aos praticados no pico do mercado, conseguem atingir rácios mais aceitáveis.

Por esta razão, há que ler este indicador com alguma reserva e noção do seu verdadeiro enquadramento, quanto mais se trata de um indicador não-transaccional, ao contrário do S&P Case-Shiller.

Os dados mais recentes apontam para um ligeiro aumento do valor médio de avaliação bancária no 2º trimestre de 2009. Tal como nos Estados Unidos, observamos uma ligeira recuperação mas as variações homólogas continuam negativas.

No entanto, a nossa realidade é diferente. Ao passo que o Índice S&P Case Shiller encontra-se agora a níveis de 2003, o valor médio de avaliação bancária para Portugal Continental está 8% acima do verificado também em 2003.

O Distrito de Lisboa, por exemplo, apresenta uma valorização de 10,62%, mesmo com uma variação homóloga no 2º trimestre de 2009 de -2,4%. Também Porto e Faro apresentam valorizações no mesmo período, com 3,54% e 4,59% respectivamente.
Aparentemente, Portugal apresentou, nos últimos anos, maior estabilidade no mercado habitacional mas também não terá apresentado o mesmo fulgor em anos transactos.

Os próximos meses serão interessantes de analisar por forma a verificarmos como irão evoluir estes indicadores tão importantes para a quantificação do mercado de habitação.

Bons negócios (imobiliários)!

Fontes: INE, Standard & Poor’s, Bloomberg Television, Out of the Box

terça-feira, 8 de setembro de 2009

O Mercado de Habitação nos EUA - II

Deixo-vos hoje um gráfico interessante, que nos mostra um forte decréscimo na percentagem de norte-americanos que são proprietários de habitação. Por todas as razões que se conhecem, esta descida era perfeitamente expectável.


No entanto, sobrepondo este gráfico com o do S&P Case-Shiller encontramos aqui algumas diferenças que vale a pena frisar. Enquanto que o número de proprietários atingiu o seu pico em 2004, o valor do S&P Case-Shiller (índice que mede o valor da habitação unifamiliar nos Estados Unidos) atingiu o seu pico 2 anos depois.

Por outro lado, este índice encontra-se agora a valores de 2000, enquanto o S&P Case-Shiller está agora a “cotar” a valores de 2003. Encontramos, pois, um desfasamento de cerca de 2 a 3 anos entre estes dois índices.

E no futuro, haverá lugar para descer ainda mais? Fazendo aqui uma “malandrice”, o gráfico parece estar a formar uma formação Head & Shoulders (H&S), abrindo lugar para novas descidas…


Bons negócios (imobiliários)!

quinta-feira, 3 de setembro de 2009

The S&P Case Shiller - III

Deixo-vos hoje, na volta de férias, uma entrevista com David Rosenberg, da Gluskin Sheff & Associates.

Logo no início, ele fala-nos do S& P Case Shiller e do que está por trás dos mais recentes movimentos deste índice. Concordo em absoluto com David Rosenberg. Já aqui o escrevi e volto a frisar: parece-me que os mais recentes movimentos em alta do índice podem ter sido "forçados" pelas políticas locais encetadas.

Agora que essas políticas já foram implementadas, resta saber se voltarão ao mercado as distressed sales que poderão forçar, de novo, um movimento em baixa.

Podem ver o vídeo
aqui.

Bons negócios (imobiliários)!

quarta-feira, 12 de agosto de 2009

O Mercado de Habitação nos EUA

Hoje deixo-vos uma entrevista na Bloomberg Television com Dan Alpert da Westwood Capital, que nos fala sobre o mercado de habitação nos Estados Unidos.

Dan Alpert estima que o mercado de habitação desvalorize 40%, contra os 28% projectados por ele próprio há um ano. Se olharmos para o S&P Case Shiller, estamos actualmente perante uma desvalorização próxima dos 33%, face aos máximos verificados no final 1º semestre de 2006, o que significa que ainda teríamos alguma descida pela frente…

Outro aspecto curioso, relaciona-se com o múltiplo da habitação, já referenciado na última Real Estate & Finance Newsletter. No pico do mercado, o múltiplo renda/valor atingiu 28 vezes, quando historicamente esse valor rondava 13 vezes. Ou seja, passamos de yields históricas de 7,5%-8% para 3,5%!

Podem ver o vídeo
aqui.

Bons negócios (imobiliário)!

quinta-feira, 30 de julho de 2009

Entrevista com Robert Shiller

Deixo-vos hoje uma entrevista na Blomberg com Robert Shiller, co-fundador do índice S&P Case-Shiller.

Podemos aqui ouvi-lo falar sobre o mercado de habitação norte-americano. O cenário actual parece bom: os preços cairam muito e aparentam estar a chegar a uma base mais sólida. No entanto, tudo dependerá da Economia... é como dizia o outro: é a Economia, estúpido!

Podem ver o vídeo
aqui.

Boas férias e bons negócios (imobiliários)!

segunda-feira, 6 de julho de 2009

The S&P Case Shiller Index - II

Coloco aqui um gráfico fantástico, centenário, do Índice S&P Case Shiller. Acho que só o gráfico diz tudo... que boom entre finais de 90 e início do presente século!

Historicamente, em momentos "pós-boom", o índice parece sempre querer voltar à base 100…

Bons negócios (imobiliários)!

terça-feira, 24 de fevereiro de 2009

The S&P Case Shiller Index

O S&P Case Shiller Index é o principal indicador norte-americano sobre o valor do mercado da habitação. Durante o ano de 2008, este índice observou um decréscimo de 18,5%, tendo caído 18,2% no último trimestre, quando comparando com período homólogo de 2007.

Trata-se do maior declínio do índice desde o início da série que leva já 21 anos. O mercado está neste momento a atingir valores de 2003. Phoenix, (-34.0%), Las Vegas (-33.0%), San Francisco (-31.2%) foram as cidades que observaram a maior descida em 2008.

No entanto, quando comparando com o S&P 500, o Case Shiller está ainda muito distante das quedas que têm vindo a assolar o mercado bolsista. O S&P 500 acumula já uma queda de quase 50% no último ano, estando neste momento a transaccionar a valores de 1997.

A leitura que fazemos destas disparidades é a seguinte:

- Por natureza, os mercados bolsistas são mais voláteis e reagem muito mais ao preço. Em alturas de bear-market, tendem naturalmente a registar descidas mais rápidas e mais fortes;

- Por seu turno, o imóvel é um activo financeiro mais rígido e demora muito mais tempo a reagir a influências externas macroeconómicas;

- Adicionalmente, parece-nos que em alturas de crise e necessidade de liquidez, o investidor vende primeiro os títulos mobiliários por serem muito mais líquidos e o seu valor imediatamente perceptível, caso que não acontece com um activo imobiliário;

- Um imóvel é muito menos líquido e o seu valor só é conhecido com a transacção. Se uma acção podemos ver, a todo o momento, qual o potencial valor de realização, isso já não acontece com um imóvel;

- Finalmente, aquilo que nos parece é que a continuação deste cenário de enorme incerteza nos mercados poderá provocar ainda quedas superiores no S&P Case Shiller e em outros índices imobiliários, a partir do momento em que os investidores tenham forçosamente de tornar líquidos os seus investimentos imobilíários, provocando assim forte pressão sobre o preço.

Bons negócios (imobiliários)!