quinta-feira, 5 de Novembro de 2009

Entrevista com Jorge Bota


Hoje deixo-vos uma entrevista com Jorge Bota, sócio fundador da B. Prime. Ele explica-nos o que é a empresa e como nasceu, como se posiciona e quais os objectivos para o futuro.




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Gonçalo Nascimento Rodrigues (GNR): Fala-nos um pouco da B. Prime? Que tipo de serviços prestam? Qual o vosso posicionamento?

Jorge Bota (JB): A B. Prime é uma consultora imobiliária recentemente constituída, que nasce na sequência do encerramento em Portugal da DTZ, onde eu estava anteriormente, embora já viesse há algum tempo a pensar nesta hipótese. A dúvida era perceber qual o real peso de uma marca internacional versus a experiência e reconhecimento profissional das pessoas envolvidas.

O encerramento da DTZ proporcionou correr o risco de iniciar um projecto novo numa altura em que o mercado denota grandes dificuldades nesta área, pelo que acredito que se vencermos este período difícil, que julgo se prolongará até ao final de 2010, o projecto será vencedor, como aliás acredito profundamente.

Por outro lado, não vou negar que a oportunidade de ocupar o espaço deixado vago pela DTZ foi um factor determinante, embora hoje possa dizer que de facto o que é decisivo neste negócio são as pessoas e que as marcas internacionais são meras alavancas que funcionam apenas se estiverem ao serviço das pessoas certas.

A ideia da B. Prime é posicionar-se como uma consultora independente das marcas internacionais, com mais flexibilidade e disponibilidade para apoiar os clientes da forma que eles pretendem, e não nos standards que as outras consultoras adoptaram como paradigma do que deve ser feito. Concentramo-nos inicialmente na área dos escritórios, pois é a área que quer eu, quer o Paulo Henriques que se juntou ao projecto, nos dedicámos nos últimos 15 anos e que por isso conhecemos muito bem. Nesta área disponibilizamos todos os serviços habituais, ou seja, a agência com compra, venda e arrendamento de escritórios, quer representando proprietários quer ocupantes, investimento, projectos de arquitectura de interiores, obras de interiores e consultoria.

Além destas áreas para as quais temos valências internas, ainda disponibilizamos avaliações com a marca internacional DTZ através de um acordo que temos com essa empresa.

Aquilo que principalmente caracteriza a B. Prime é o facto de esta empresa ser constituída por profissionais experientes e reconhecidos e que ao mesmo tempo são sócios da empresa, podendo aqui desenvolver os seus projectos sem as limitações inerentes às grandes organizações internacionais, sendo ainda por cima co-proprietários de uma empresa para a qual participam com o seu trabalho.


GNR: E quem são os vossos principais concorrentes?

JB: São as demais consultoras do mercado, porque apesar da B. Prime neste momento apenas se dedicar aos escritórios, é nossa pretensão ir alargando o nosso âmbito de serviços com o convite a outros profissionais do mercado e posicionarmo-nos como uma empresa que cobre todas as áreas do imobiliário.


GNR: Não achas que pode haver “conflito de interesses” em prestar serviços de “tenant rep” e agenciamento de escritórios ao mesmo tempo? Não achas que serviços à procura e oferta de imóveis deveriam estar separados?

JB: Não, porque o que tem de ser definido desde o início
, é para quem é que estás trabalhar, e é necessário que isso fique claro para todas as partes envolvidas. Por outro lado, um profissional que conheça bem ambas as áreas é muito mais eficaz e prestará garantidamente um melhor serviço e melhores resultados do que alguém que apenas representa uma das partes. O conhecimento do “outro lado” é muitas vezes a chave do sucesso para obter excelentes resultados para o nosso cliente e deixá-lo satisfeito, reconhecendo que os fees pagos foram largamente superados pelos benefícios obtidos.


GNR: Quais são os vossos objectivos para 2010?

JB: Os nossos objectivos para o próximo ano passam pela consolidação da nossa posição como um player a ter em conta no mercado de escritórios e gostaríamos de eventualmente alargar para uma nova área. Só ainda não consigo identificar qual das três mais prioritárias será aquela para a qual avançaremos, porque estará também dependente das necessidades dos nossos clientes. Mas já temos as pessoas identificadas e as condições para avançar!


GNR: Achas que ainda há espaço para se inovar na prestação de serviços de Consultoria no sector de escritórios? Como?

JB: A principal inovação que podemos fazer passa por acompanhar as tendências e boas práticas de mercados mais desenvolvidos e que estão mais numa posição de vanguarda. Depois, o que os clientes pretendem é que uma empresa como a nossa tenha quadros de elevada competência e com disponibilidade para os seus projectos e não segundas e terceiras linhas. É por aí que ainda se pode inovar. Claro que para isto é preciso ser eficiente e flexível para ser competitivo e disponibilizar consultores seniores ao preço da demais concorrência!


GNR: Que desafios se encerram hoje no nosso mercado de escritórios?

JB: Neste momento, o principal desafio é convencer as empresas que têm hoje uma oportunidade ímpar de poder arrendar um excelente escritório com condições altamente competitivas desde que estejam dispostas a garantir um bom período de permanência aos senhorios. Para isto é preciso estimular a parte da economia que se mantém a funcionar normalmente e abdicar das empresas que vêem nesta mudança um mero balão de oxigénio para ultrapassar as presentes dificuldades. Estas não podem ser boas clientes para o nosso cliente, ou seja o proprietário.


GNR: Tem havido procura de produto de escritórios para investimento? Como vês este sector (do investimento imobiliário em escritórios) a evoluir nos próximos meses?

JB: Este é um dos sectores que parece estar neste momento a recuperar, não só pela disponibilidade demonstrada pelos investidores em voltar ao mercado como também pela maior liquidez que têm e que os pressiona a encontrar aplicação.

Neste momento existem dois grandes grupos activos no mercado: o dos investidores institucionais que estão neste momento disponíveis para comprar produtos de qualidade superior, core ou core plus, e os investidores de pequena dimensão que vêem no presente uma oportunidade para adquirir imóveis que antes tinham grande dificuldade em fazê-lo, porque a pressão sobre os preços feita pelos institucionais que tinham excesso de liquidez e que compravam tudo, os afastava.


GNR: Com que principais aspectos se preocupa um cliente corporate, que procura um escritório? E um cliente proprietário, que pretende vender? E um cliente investidor, que pretende comprar para rendimento/ investimento?

JB: O cliente corporate procura essencialmente conciliar localização e qualidade técnica do escritório com um custo fixo mensal comportável para a sua actividade.

Já o proprietário pretende encontrar clientes que lhe dê garantia de permanência, de pagamento e um rendimento maximizado para o seu investimento.

O investidor, ao contrário do que se passava anteriormente, já não está só à procura de um rendimento mas também de um imóvel com qualidade e que tenha boas perspectivas de valorização futura e que seja fácil encontrar novos inquilinos caso os actuais venham a sair num futuro próximo.

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Jorge Bota iniciou a sua carreira no sector imobiliário há 15 anos na José de Mello Imobilária. Passou depois pela Cushman & Wakefield e Imocom até chegar a Director do Departamento de Escritórios da DTZ.

Foi no rescaldo do fecho da operação em Portugal que avançou para a constituição da B. Prime, em Abril de 2009.

Em 2007 foi distinguido pelo prémio europeu da Property Week como a melhor agencia de escritórios a nível europeu, onde Portugal teve um papel activo, e é membro do Royal Institute of Chartered Surveyors (MRICS).

segunda-feira, 2 de Novembro de 2009

O Risco Cambial nos Investimentos Imobiliários

Deixo-vos cópia integral do artigo que escrevi para a edição de Outubro da Revista Imobiliária.


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Hoje em dia, num Mundo tão global como é este em que vivemos, não basta dar atenção aos drivers do mercado imobiliário para tomar uma decisão de investimento.

É óbvio que as variáveis críticas de mercado que nos ajudam a suportar uma decisão de investimento, nomeadamente, a procura, a oferta, a concorrência (directa e indirecta), os preços que são praticados e a forma como os concorrentes comunicam, são todas elas variáveis fundamentais e que, cada vez mais, importa analisá-las em profundidade antes de tomar uma decisão.

No entanto, sou da opinião que dominar as variáveis de cariz financeiro é algo que, hoje em dia, pode marcar a diferença. Quem o conseguir, sai claramente beneficiado em detrimento de quem não o é capaz de fazer.

Dentro deste domínio, surge um aspecto que considero muito importante no investimento imobiliário. Hoje fala-se muito de internacionalização e diversificação de mercados. Cada vez mais vemos Promotores e Investidores Imobiliários a procurarem outras “paragens” para os seus investimentos e projectos. Angola, Brasil e outros países dos PALOP são frequentemente destino da nossa experiência, know-how e massa monetária.

Em todos estes países que referi – e outros, claro está – existe um risco que tem de ser muito bem medido e calculado: o risco cambial. Os investimentos efectuados em países fora da Zona Euro serão denominados em moeda estrangeira, logo esses investimentos acarretam – entre outros – risco cambial.

Neste artigo, por uma questão de simplicidade mas também facilidade de reunir informação, vou debruçar-me sobre o mercado britânico e o efeito da Libra num investimento imobiliário efectuado por um Promotor ou Investidor sediado num País da Zona Euro, como é o caso de Portugal. Em teoria, tudo se aplica da mesma forma para qualquer outro país situado fora da Zona Euro.

O Câmbio Euro/Libra

Olhando então para a relação Euro/Libra, concluímos que esse câmbio tem estado bastante “activo” nos últimos meses, apresentando grande volatilidade. Na realidade, a Libra Inglesa tem observado uma forte desvalorização face ao Euro. O gráfico mostra-nos bem a forte variação cambial ocorrida desde os máximos de 2007 até aos mínimos do final de 2008, altura em que as moedas quase atingiram a paridade.

Gráfico: Cotação €/£

Fonte: www.financial-portal.com

No espaço de menos de 2 anos, entre 2007 e 2008, a libra inglesa desvalorizou mais de 50% face ao euro. Na prática, e mantendo tudo o resto constante, significa que um investidor sediado na Zona Euro com investimentos em Inglaterra, veria o seu investimento desvalorizado em mais de 50% só pela variação cambial. O problema é que, em igual período, não foi só a libra que desvalorizou, os mercados imobiliários também deram uma ajuda…

Naturalmente que pela lei da Paridade do Poder de Compra, os preços dever-se-iam ajustar à variação cambial. A forte desvalorização dos preços do imobiliário em Inglaterra até poderia antecipar esse ajustamento. No entanto, também os preços na Zona Euro desceram bastante, sendo que esse efeito conjunto deveria ter mantido a posição competitiva entre os países, algo que não aconteceu. Na realidade, a Libra Inglesa desvalorizou bastante face ao Euro.

Essa desvalorização fez-se também sentir no poder de compra do mercado britânico. Acostumados a uma Libra forte, a sua capacidade de consumo em Países da Zona Euro, como é Portugal, era grande, fazendo-se sentir também nos mercados imobiliário e turístico.

Na realidade, o mercado britânico foi um dos principais impulsionadores do nosso mercado imobiliário de 2ª habitação, muito focado em resorts turísticos. Claro está, não foi só o efeito isolado da desvalorização da Libra que fez com que a procura britânica por imobiliário continental tenha quase deixado de existir. Outros factores contribuíram para que tal tivesse ocorrido mas que não importa agora realçá-los.

O que é fundamental entender é que a desvalorização da Libra face ao Euro acarreta duas importantes consequências:

Por um lado, a perda de poder de compra do britânico em Países da Europa Continental e, consequentemente, uma menor capacidade de investimento;

Por outro lado, o aumento do risco no investimento imobiliário no Reino Unido, levado a cabo por investidores residentes em países pertencentes à Zona Euro.


O Mercado Imobiliário Britânico

Isolando agora o imobiliário do efeito cambial, concluímos que também este tem estado sob forte pressão. Desde o início de 2007, o índice EPRA/NAREIT para o Reino Unido – índice que mede a cotação de REIT e Non-REIT cotados na bolsa de Londres – caiu já cerca de 74%, mostrando bem a volatilidade do mercado.

Gráfico: Cotação Índice EPRA/NAREIT UK

Fonte: EPRA

Neste índice estão incluídas empresas como a Land Securities, British Land, Hammerson, entre outras. Será, porventura, um dos melhores (senão mesmo o melhor) índices de imobiliário britânico, para “determinação” de um preço de investimento indirecto no mercado. É, aliás, muito utilizado como referência para produtos derivados de imobiliário.

Pela dimensão das empresas que o constituem, pela importância que representa em termos de referência para negociação de produtos derivados e pela sua liquidez, parece-me ser um bom indicador do mercado de commercial real estate no Reino Unido.

Assim, tomando este índice como referência, podemos concluir que um investidor europeu, domiciliado em moeda europeia, investindo em imobiliário britânico, tem de cobrir as suas posições investidoras por duas vias:

- Pela desvalorização do próprio activo. Neste caso pode procurar ficar curto em imobiliário, shortando este índice por exemplo, e assim cobrindo as suas posições longas num qualquer activo imobiliário que detenha;

- Pela desvalorização da moeda. Se um investidor procurar liquidar a sua posição activa, receberá libras pela venda do imóvel, correndo assim risco de câmbio que, pelo que vimos, é bastante elevado nos tempos que correm.

Mas para efeitos do presente artigo, limitemo-nos à questão da desvalorização da moeda e às formas que um investidor poderá ter para cobrir o risco cambial no seu investimento imobiliário.

A Cobertura do Risco Cambial

Que instrumentos poderão então ser utilizados para um investidor ficar coberto do risco cambial e sujeitar-se apenas ao risco do próprio negócio imobiliário?

Independentemente de se tratar de um investimento de geração de renda ou mais-valias (seja para arrendamento ou para venda, respectivamente), todos esses recebimentos estarão denominados em libras. Quando esses recebimentos ocorrerem no futuro, serão cambiados para euro e aí é que se verifica o risco de câmbio. Assim sendo, há que cobrir o risco cambial num dado momento futuro.

Para o fazer, um investidor imobiliário tem ao seu dispor – dependendo naturalmente dos montantes envolvidos e do tipo de investimento imobiliário – dois instrumentos:

- Forwards cambiais. Não é mais que um contrato entre duas entidades envolvendo a compra (venda) da divisa A e a venda (compra) da divisa B, a uma taxa de câmbio A/B estabelecida no momento de realização do contrato, para uma data futura. Assim, através da compra de um forward cambial, consigo fixar hoje em euros, o valor do recebimento futuro das libras resultante do investimento imobiliário efectuado. Logo, sei perfeitamente qual o valor em euros que irei receber no futuro, proveniente das libras recebidas;

- Swaps Cambiais. Trata-se de um acordo entre duas partes que envolve a permuta de juros e capital, calculados com base num montante equivalente, mas expresso em diferentes divisas. Este instrumento apenas se aplicará se o financiamento do investimento imobiliário estiver também ele denominado em libras. Neste caso, o câmbio influenciará também o valor de juros e capital que têm de ser pagos e com a compra de um swap cambial é possível passar o financiamento em causa para euros, não correndo risco de câmbio no momento em que tiver de pagar juros e capital em libras.

A principal conclusão que se retira deste artigo é que, hoje em dia, não bastará a um investidor olhar para os fundamentais do mercado, quando pretende tomar uma decisão de investimento imobiliário no estrangeiro. Acreditar no potencial de valorização de um qualquer activo imobiliário situado fora da Zona Euro não bastará para se tomar uma decisão e não bastará, com certeza, para garantir a rentabilidade esperada.

Hoje, mais do que nunca, o risco cambial, bem como os de inflação e taxa de juro são cada vez maiores e há que ser capaz de, antecipadamente, cobrir esses mesmos riscos.

Bons negócios (imobiliários)!

terça-feira, 27 de Outubro de 2009

Entrevista com Vitor Rita

É uma empresa curiosa, esta yoolocation: praticamente não têm espaço físico e no entanto têm o objectivo de atingir um quadro de 25 Consultores; não são mediadores, na verdadeira acepção da palavra, mas têm colocado alguns imóveis de forma interessante.

Tive uma conversa com Vitor Rita da Yoolocation que vos deixo agora aqui, na íntegra. Trata-se de uma empresa nova e inovadora: olham para um imóvel devoluto e estudam a melhor forma de o rentabilizar. Depois, partem para a acção, concretizando as ideias inicialmente propostas: desenham os espaços, procuram os ocupadores e no final, rentabilizaram um imóvel que estava inicialmente devoluto.

Dizem que o objectivo é alcançar gross yields de 9% a 10% com o trabalho que fazem sobre os imóveis.

Aqui fica a entrevista.

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Gonçalo Nascimento Rodrigues (GNR): Fale-nos um pouco da YooLocation. Que tipo de empresa são? Direccionam a vossa actividade para que tipo de clientes? Ocupadores? Proprietários? Investidores?

Vitor Rita (VR): Yoolocation.com é uma imobiliária com um novo conceito, new real estate concepts. Criamos projectos e conceitos inovadores com o objectivo de rentabilizar um imóvel. Estamos a criar uma grande equipa desde consultores (ate Dezembro de 2010, prevemos atingir os 25 consultores a nível nacional), arquitectos, designers, engenheiros, economistas, criativos, etc.

A nossa empresa está vocacionada para criar valor para os proprietários e investidores e trazer mais-valias aos ocupadores. Temos já uma boa lista de tenants que pretendem explorar os nossos conceitos.

Também desenvolvemos uma actividade normal de uma imobiliária, incluindo serviços de venda, promoção, arrendamento e gestão de imóveis. Utilizamos o marketing como "guerrilha" para promover o nosso negocio.


GNR: E em que segmentos do mercado imobiliário apostam mais?

VR: 90% da nossa actividade centra-se em imobiliário comercial (office, retail, logistics, industrial); 10% em imobiliário turístico.


GNR: Quem consideram ser os vossos principais concorrentes?

VR: “Acreditamos no poder da partilha”, negociamos bastante e elaboramos projectos com diversas imobiliárias nacionais e estrangeiras. Por isso podemos dizer que não temos concorrentes mas sim parceiros.


GNR: Qual é o vosso principal factor de diferenciação, face a uma “tradicional” empresa de consultoria e mediação imobiliária?

VR: Acima de tudo procuramos que cada projecto se enquadre da melhor forma no imóvel e local onde vai ser inserido. Pretendemos oferecer um trabalho diferente operando da seguinte forma: o proprietário apresenta o imóvel, nós criamos um conceito e desenvolvemos um projecto adequado e inovador “chave na mão”, seleccionamos os inquilinos tenants e ficamos a fazer gestão integral do projecto. Após este estar em funcionamento e, se o proprietário assim o desejar, tentaremos vender o mesmo junto de alguns investidores. Como nesta altura o imóvel já começa a ser rentável, torna-se fácil de realizar a venda.

Inicialmente eram apenas os proprietários os únicos interessados nestes projectos, mas surgiu agora um outro tipo de interesse, por parte de bancos, fundos e investidores.

Diariamente somos contactados por potenciais clientes que solicitam os nossos serviços. No mês passado, inclusive, fomos contactados por empresas estrangeiras investidoras no imobiliário, que nos solicitaram este tipo de projectos para concretizá-los nos seus países.


GNR: Como funciona o vosso portal imoyoo? Quais os objectivos a cumprir?

VR: O portal imoyoo.com foi lançado em Janeiro de 2009 e por enquanto a sua utilização é gratuita. É uma plataforma específica para os consultores imobiliários que estejam agregados a uma imobiliária em Portugal, Brasil, Angola, Moçambique ou Cabo Verde. O objectivo deste portal é a partilha de negócios imobiliários, independentemente da imobiliária a que pertençam, dando força aos consultores que por vezes se encontram “sós” neste vasto mercado. Ainda só temos 300 angariadores inscritos mas o nosso objectivo é atingir as 1.000 inscrições.


GNR: Quais são as principais preocupações dos Clientes quando vos procuram?

VR: Basicamente as grandes preocupações de quem nos procura são: os imóveis devolutos, imóveis em construção, imóveis com fraca rentabilização, a grande falta de ideias e a falta de projectos viáveis. Porém, acima de tudo, os clientes sabem que o mercado está a mudar e que são necessários novos conceitos e novas formas de comercializar o imobiliário.


GNR: Quais são os vossos objectivos para 2010?

VR: Criar 10 conceitos inovadores, implementá-los e fazer a gestão dos mesmos.


GNR: Acha que ainda há espaço para se inovar na prestação de serviços de Consultoria Imobiliária? Como?

VR: Sim, quanto mais brain storming fazemos, mais ideias temos.

Queremos que se juntem a nós os melhores em cada área. Jovens ou idosos temos espaço para todos. Queremos "bombardear" o mercado imobiliário com novos conceitos e assim ganhar a confiança dos que investem no imobiliário.

Por exemplo: estamos a criar um novo conceito de restauração para a baixa de Lisboa com uma área superior aos 2.000 m2 que consiste num restaurante temático (algo inovador). Ao almoço será um tema com um conceito específico, ao jantar será outro tema totalmente diferente e a partir das 24h00 será outro tema. Este restaurante funcionará 20 horas por dia (estará encerrado 4 horas para limpeza). Tornar-se-á um grande centro de atracção para o turismo de Lisboa e uma fantástica experiência para quem gosta de comer e se divertir.


GNR: Que desafios se encerram hoje no mercado imobiliário nacional?

VR: Segundo as estatísticas existem mais de 400.000 fogos para venda em Portugal. Temos boas ideias para projectos no mercado habitacional, algo diferente, as quais pensamos que podem ser usadas num futuro como mais-valias. Procuramos clientes que estejam abertos a uma nova visão para esta área.

Acreditamos que as imobiliárias terão que ser low-cost num futuro próximo para poderem sobreviver, mas têm de aumentar a qualidade de serviço. Para isso, os construtores têm que entregar aos “especialistas imobiliários” a comercialização dos seus imóveis enquanto eles ainda estão em projecto.

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Vitor Rita tem 44 anos e estudou na África do Sul nas áreas de Gestão e Marketing. Entre 1988 e 2006 trabalhou como trader internacional no Egipto, Grécia, Itália, Holanda, Inglaterra, Dinamarca, Brasil, Argentina e Espanha.

Em 2007 decidiu entrar no mercado imobiliário, tendo passado pela Century 21 e, mais recentemente, na yoolocation.

Tem diversas formações na ESAI, APEMIP e Pluri-Valor.

O objectivo da yoolocation.com é formar uma equipa de criadores, pensadores e inovadores e ser reconhecida mundialmente como tal. Pretendem dar "qualidade de vida a quem colabora com a empresa" e que os seus colaboradores tenham a ideia que: working is a party e que if you are satisfied, you are more Creative, and your clients will be happy, happy.

terça-feira, 20 de Outubro de 2009

Entrevista com Miguel Queiróz


Miguel Queiróz é Administrador da FundBox, Sociedade Gestora de Fundos de Investimento Imobiliário, e é responsável pela área de Consultoria. Tivemos uma breve conversa com ele, que agora publicamos na íntegra.



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Gonçalo Nascimento Rodrigues (GNR): Fala-nos um pouco deste novo desafio na Fundbox. Que tipo de Consultoria pretendem prestar?

Miguel Queiróz (MQ): Por naturezas, a investidores que precisem de capital, de veículos e/ou de activos, afinal aquilo que os investidores sempre procuram; em termos de estilo, uma consultadoria executada com uma estrutura muito “flat”, como é apanágio da FundBox.


GNR: E a que tipo de clientes? Algum nicho específico ou pretendem apostar no mercado imobiliário em geral?

MQ: Nenhum nicho em particular. Investidores que procurem capital, próprio ou alheio, investidores que procurem investir ou desinvestir, sem esquecer os investidores que necessitam de soluções de estruturação dos seus investimentos, sempre o ponto de partida na FundBox (e da FundBox), e provavelmente a maior diferença (diria mais valia se não fosse modesto) relativamente às consultoras “tradicionais”.


GNR: Quais as principais diferenças que encontras entre a Fundbox e a DTZ?

MQ: Duas grandes: a cor (vermelho vs. Laranja) e a natureza (sociedade gestora vs. Consultora).


GNR: Achas que há espaço no mercado para novas Consultoras? De que tipo?

MQ: Nem por isso. Poderá haver, quando muito, espaço para operações de nicho (geográfico ou de área de negócio) alicerçadas nos profissionais que as gerem.


GNR: Como vês esta integração de serviços de Consultoria numa Sociedade Gestora de Fundos Imobiliários?

MQ: Como natural. Uma sociedade gestora estrutura veículos, selecciona activos e angaria capital para os seus fundos; na sua actividade de consultoria, faz as mesmas operações por conta de veículos geridos pelos clientes.


GNR: Consideras haver ainda boas oportunidades de investimento imobiliário em Portugal? Em que sectores?

MQ: Sim. Na regeneração urbana, área em que há muito para fazer; na gestão de carteiras imobiliárias de instituições sem vocação nem estrutura para o fazer capazmente (por exemplo empresas públicas, administração pública, nomeadamente ministérios, algumas instituições sem fins lucrativos); e no imobiliário turístico.


GNR: O que falta ao nosso mercado para ser mais atractivo ao investimento internacional?

MQ: Essencialmente dimensão; logo a seguir, a terrível burocracia nacional.


GNR: Olhando agora um pouco para a conjuntura actual, como encaras os dados macroeconómicos mais recentes, que aparentemente apontam para alguma recuperação?

MQ: Com prudência, mas a palavra-chave nas recuperações é “confiança”: se os consumidores – e os investidores, embora estes sejam mais difíceis de convencer - confiarem que a recuperação está no horizonte, ela está-lo-á; se não …


GNR: E o mercado imobiliário português? Achas que a sua recuperação está também dependente da conjuntura internacional ou existirão factores internos que possam impedir essa mesma recuperação?

MQ: Da conjuntura internacional, está certamente dependente, por força da importância dos investidores internacionais no nosso pequeno mercado. Os factores internos – transparência, tanta quanto possível, e informalidade, tão pouca quanto possível - são importantes na medida em que têm de dar confiança aos investidores internacionais quando estes voltarem a olhar para o mercado nacional.


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Miguel Queiróz é, actualmente, Administrador da FundBox e responsável pela área de Consultoria.

Foi Director-Geral da DTZ entre 2001 e Abril de 2009, altura em que a empresa internacional de Consultoria Imobiliária tomou a decisão de encerrar a sua actividade em Portugal.

É licenciado em Organização e Gestão de Empresas pelo Instituto Superior de Ciências do Trabalho e da Empresa, e tem um MBA pela Faculdade de Ciências Económicas e Empresariais da Universidade Católica Portuguesa.

segunda-feira, 19 de Outubro de 2009

The S&P Case Shiller Index - V

Deixo-vos mais uma entrevista com Robert Shiller, um dos criadores do S&P Case Shiller Index.

Ele fala-nos sobre a possibilidade de se estar a criar uma nova bolha, análise "suportada" pelos movimentos mais recentes de subida no índice.

Para ele, estas súbitas subidas no índice não são normais, levando em linha de conta que estamos perante um mercado rígido, pouco flexível e com reduzida liquidez. O mercado tem padrões e esse padrão tem sido de descida, desde 2006.

Ao contrário daquela que é a minha opinião, Robert Shiller não justifica estas subidas apenas pelo fenómeno fiscal de subsidiação da compra e refinanciamento de habitação. A subida da confiança dos investidores tem-se feito sentir nos mercados de acções, e isso tem sido também o principal driver no mercado de habitação.





Bons negócios (imobiliários)!

quinta-feira, 15 de Outubro de 2009

Bolha Imobiliária em Hong Kong

Hoje deixo-vos uma entrevista com Peter Churchouse, chairman da Portwood Capital.

Diz-nos ele que se perspectiva uma bolha imobiliária no sector da habitação de luxo em Hong Kong mas tranquiliza os espectadores quando diz que essa bolha não se sente no mercado de classe média, enfim, o mercado mais relevante.

Isto porque os preços nesse mercado estão, neste momento, 25% a 30% abaixo dos valores verificados em 1997... esperem, ele disse 1997?! Passados 11 anos, a habitação vale menos 25% a 30%?! Então mas não era o imobiliário que valorizava todos os anos, com rentabilidades estáveis e positivas?





Bons negócios (imobiliários)!

sexta-feira, 9 de Outubro de 2009

Pensar Fora da Caixa - VI

Hoje deixo-vos um vídeo que nada tem a ver com imobiliário.


Hoje em dia, o Mundo está realmente em constante mutação.


Pensar os problemas exige uma nova abordagem, espírito de abertura e criatividade.


Nós já saímos da caixa. E você?


quarta-feira, 30 de Setembro de 2009

Delinquent Mortgages in US Housing Market

Na sequência do último post e dos dados mais recentes do S&P Case Shiller (que registou uma subida em Julho), deixo-vos hoje um gráfico interessante sobre o montante de hipotecas que estão em actualmente em default e ainda por liquidar. Caso assim se mantenham, eventualmente todas estas casas hipotecadas terão de vir para o mercado e aí podemos esperar forte pressão no preço.


Mais uma vez, este movimento dependerá em muito da manutenção do programa de refinanciamento de hipotecas e de se optar em aumentar, nos Estados Unidos, o montante global de negative equity no sector da habitação.

Outro elemento importante diz respeito ao nº de habitações novas a construir. Também já vimos noutro post que o movimento de aceleração tem vindo gradualmente a diminuir. Sabe-se agora, através de um estudo levado a cabo pela National Association of Home Builders (NAHB), que 63% dos construtores inquiridos referem estar a sentir muitas dificuldades em contratar crédito para financiar a sua actividade de construção de habitação unifamiliar:

- 80% dos inquiridos referem que as entidades financiadoras estão a diminuir o rácio loan-to-value (LTV);
- 76% referem que não existem sequer novas linhas de crédito disponíveis;
- 75% dizem, ainda, que as instituições financeiras estão a reduzir os montantes máximos de concessão de crédito.

Nestas condições, dizem os construtores que terão naturalmente de parar com os seus investimentos.

Neste momento, temos o fim do benefício fiscal de USD 8.000 para os chamados "first-time buyers", o fim do programa de refinanciamento de hipotecas e um maior aperto nas condições de financiamento das empresas de construção.

Terá chegado ao fim todo este ciclo de recuperação no mercado imobiliário habitacional nos Estados Unidos?

Bons negócios (imobiliários)!

sexta-feira, 25 de Setembro de 2009

USA Existing Home Sales

Na sequência dos artigos sobre o S&P Case Shiller, deixo-vos hoje um gráfico sobre as vendas de casas usadas nos Estados Unidos da América.

Agora que o programa governamental de auxílio à compra de casas e de refinanciamento de hipotecas terminou, parece que o mercado volta de novo a ajustar em baixa.


Estou expectante para ver alguns dados até final do ano, nomeadamente: S&P Case Shiller, Existing Home Sales, New House Starts e as estatísticas da Zillow (que aprecio bastante) sobre negative equity e o Zillow Home Value Index. Por cá, sempre a seguir o Valor Médio de Avaliação Bancária.

Sobre o S&P Case Shiller, podem ver o artigo que escrevi para a Revista Imobiliária sendo que assim que saírem os números mais recentes, actualizarei aqui os dados.

Quando ao New House Starts, este indicador apresenta alguma recuperação, sendo que as previsões apontam para uma contínua subida até final do ano.


No entanto, o sentimento de mercado é de esperar para ver, e numa entrevista a Stephen Stanley, Chief Economist da RBS Securities, ele diz que a expectativa é de entrarmos num período de alguma consolidação, exactamente pela mesma razão da descida do indicador Existing Home Sales: o Governo deixou de subsidiar, o mercado deixou de comprar. E se não se compra, não vale a pena construir mais. A ver vamos...

Bons negócios (imobiliários)!

segunda-feira, 21 de Setembro de 2009

The S&P Case Shiller Index - IV

Deixo-vos aqui cópia integral do artigo que escrevi para a edição do SIL da Revista Imobiliária.

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O índice S&P Case-Shiller mede a variação de valor do mercado residencial norte-americano em 20 regiões distintas nos Estados Unidos da América.

O índice foi construído a partir de um trabalho de research, no início dos anos 80, levado a cabo por Karl E. Case e Robert J. Shiller, baseado numa metodologia de cálculo das variações de valor no mercado de habitação norte-americano. Essa metodologia consiste em fazer um tracking dos preços de venda de habitações unifamiliares em certas regiões do país, sendo registadas todas as vendas e posteriores revendas dessas mesmas habitações.

Posteriormente, são expurgadas determinadas transacções que possam distorcer o cálculo final do índice, tais como, execuções de hipotecas (em americano, foreclosures), vendas entre familiares (non-arms length transactions) e outros eventuais erros que possam ocorrer, nomeadamente quando se verificam oscilações de valores substancialmente diferentes de todas as outras ocorridas nas mesmas regiões.

Inicialmente, foram cobertas 10 regiões, tendo o índice sido alargado para 20 regiões desde Janeiro de 2000. É calculado numa base mensal e publicado com um delay de dois meses.

Olhando para o índice no longo prazo, podemos verificar pelo gráfico que se segue que este registou uma forte estagnação que durou cerca de 7 anos, durante a década de 90. Só já em 1998, o índice iniciou uma subida que o levou a valorizar quase 3 vezes em apenas 8 anos.


Historicamente, o S&P Case-Shiller é um índice pouco volátil, que sempre apresentou significativa estabilidade no seu valor. Entre 1987 e 1997, o índice valorizou 31%, ao passo que entre 1998 e o pico de 2006, a subida foi de quase 175%. Este período mais recente caracterizou-se, de facto, por um boom no mercado residencial norte-americano.

Os dados mais recentes, reportados ao mês de Junho de 2009, mostram que o ritmo de queda dos valores de habitação nos Estados Unidos parece estar a abrandar, tendo o índice registado já subidas em Maio e Junho, de 0,5% e 1,4%, respectivamente.

Já desde Julho de 2006, altura em que o índice registou o seu máximo histórico, que o índice não registava qualquer subida, quanto mais em 2 meses consecutivos. Logo, estas subidas, apesar de ténues, devem ser salientadas.

Depois do máximo registado no final do 1º semestre de 2006, o índice já desvalorizou mais de 31% em quase 3 anos, estando agora a cotar a valores de Junho de 2003. No entanto, a variação homóloga continua bastante negativa, tendo o índice descido -15,4% face a Junho de 2008.

Recentemente, vi uma entrevista com Robert Shiller, um dos fundadores do índice (podem também vê-la em www.outofthebox.com.pt) na qual ele refere que esta recente subida é, sem dúvida, um bom sinal para o mercado de habitação. Diz ele que os preços subiram tanto que atingiram valores pouco condizentes com o activo em questão.

Para termos uma ideia mais concreta, no topo do mercado em 2006, o mercado de habitação norte-americano apresentava uma yield implícita (medida pelo múltiplo renda vs. valor) de 3,5%, demasiadamente baixo, inclusivamente mais baixo que os principais benchmarks de dívida pública! Historicamente, este múltiplo sempre se situou entre os 7,5% e os 8%, logo esta forte correcção e agora posterior equilíbrio no índice deve ser considerado normal.

A questão que agora se coloca é esta: o mercado tomará uma formação em V (com uma subida consistente e constante a partir de agora), ou antes uma formação em U (com uma recuperação mais ou menos longa, mais ou menos penosa)? Robert Shiller diz que tudo dependerá da economia mundial e norte-americana e do sucesso das políticas governamentais que estão (ainda) a ser aplicadas. No entanto, Robert Shiller acredita ainda em futuras quedas no índice.

Pessoalmente, a leitura que faço desta ténue recuperação do índice está intimamente ligada ao Plano Obama de refinanciamento das hipotecas mas, sobretudo, de financiamento dos montantes de negative equity no mercado habitacional norte-americano. Este “súbito acréscimo” de financiamento no mercado, mas fundamentalmente, de financiamento da componente negativa do património (ou seja, a diferença negativa entre o valor de mercado da habitação e a sua dívida) conseguiu estancar a “sangria”. Mas esta é uma medida localizada e não duradoura, pelo que quando o fresh equity voltar ao mercado, fá-lo-á porventura por valores mais baixos.

Por outro lado, o desemprego tem vindo a subir fortemente e não se espera que sofra agora um decréscimo, bem pelo contrário. Apesar dos últimos dados do desemprego norte-americano terem sido encorajadores, é expectável que surjam mais falências e downsizes nas empresas, e estes movimentos têm reflexo imediato no mercado de habitação, pela menor capacidade das famílias fazerem face às prestações de créditos à habitação.

Olhando agora um pouco para a realidade análoga Portuguesa, centremo-nos no valor médio de habitação bancária, calculado e divulgado pelo Instituto Nacional de Estatística (INE). De acordo com o INE, «O Inquérito à Avaliação Bancária na Habitação (IABH) recolhe informação caracterizadora dos alojamentos que são objecto de financiamento bancário e em cujo processo há lugar a uma avaliação técnica de cada imóvel. Assim, os seus resultados são representativos para o universo de alojamentos em que há recurso a esse meio de financiamento. A utilização desta informação deve ter em conta o facto das estimativas dos valores de avaliação dos alojamentos poderem reflectir parcialmente variações qualitativas das habitações avaliadas em cada período.»

Optei por transcrever esta definição do INE para termos noção que se trata efectivamente de um valor que resulta de uma avaliação imobiliária pedida pelos bancos que concedem crédito à habitação. Por esta razão, tenho a percepção que se deve “dar algum desconto” a este valor. No boom do crédito imobiliário e na ânsia de conceder crédito, os bancos procuravam inflacionar os valores de avaliação por forma a que estes fossem superiores ao valor de transacção. Assim, podiam emprestar o dinheiro necessário à compra da habitação, apresentando internamente rácios loan-to-value (LTV) dentro das suas políticas de financiamento. No entanto, na prática tínhamos LTV’s muito elevados (muitas vezes, superiores a 100%), quando comparados com o valor de transacção e não o valor de avaliação.

Tenho a ideia – e alguma certeza pelas conversas que tenho com alguns banqueiros – que o inverso ocorre agora. Os bancos concedem agora menos crédito e “procuram” que os valores de avaliação sejam inferiores aos valores de transacção. Desta forma, aplicando LTV’s ainda inferiores aos praticados no pico do mercado, conseguem atingir rácios mais aceitáveis.

Por esta razão, há que ler este indicador com alguma reserva e noção do seu verdadeiro enquadramento, quanto mais se trata de um indicador não-transaccional, ao contrário do S&P Case-Shiller.

Os dados mais recentes apontam para um ligeiro aumento do valor médio de avaliação bancária no 2º trimestre de 2009. Tal como nos Estados Unidos, observamos uma ligeira recuperação mas as variações homólogas continuam negativas.

No entanto, a nossa realidade é diferente. Ao passo que o Índice S&P Case Shiller encontra-se agora a níveis de 2003, o valor médio de avaliação bancária para Portugal Continental está 8% acima do verificado também em 2003.

O Distrito de Lisboa, por exemplo, apresenta uma valorização de 10,62%, mesmo com uma variação homóloga no 2º trimestre de 2009 de -2,4%. Também Porto e Faro apresentam valorizações no mesmo período, com 3,54% e 4,59% respectivamente.

Aparentemente, Portugal apresentou, nos últimos anos, maior estabilidade no mercado habitacional mas também não terá apresentado o mesmo fulgor em anos transactos.

Os próximos meses serão interessantes de analisar por forma a verificarmos como irão evoluir estes indicadores tão importantes para a quantificação do mercado de habitação.

Bons negócios (imobiliários)!

Fontes: INE, Standard & Poor’s, Bloomberg Television, Out of the Box

quarta-feira, 9 de Setembro de 2009

O Estado do Commercial Real Estate - III

O vídeo que vos deixo hoje, de muito curta duração, parece-me importante porque vai directo ao assunto.

Hoje, mesmo com sinais de alguma recuperação, os Estados Unidos enfrentam um grave problema com o sector do commercial real estate. Espera-se que os defaults nos empréstimos neste sector atinjam 5,4%% em 2011, prejudicando naturalmente os bancos financiadores.

Adicionalmente, estima-se igualmente um forte impacto no mercado dos CMBS, afectando os detentores de obrigações cujo subjacente é commercial real estate debt (ou commercial mortgages).

Ao total de mais 1 USD trillion de commercial loans, há que somar 700 USD billion de CMBS, ou seja, cerca de 20% do total commercial real estate debt existente no mercado norte-americano...



Bons negócios (imobiliários)!

terça-feira, 8 de Setembro de 2009

O Mercado de Habitação nos EUA - II

Deixo-vos hoje um gráfico interessante, que nos mostra um forte decréscimo na percentagem de norte-americanos que são proprietários de habitação. Por todas as razões que se conhecem, esta descida era perfeitamente expectável.


No entanto, sobrepondo este gráfico com o do S&P Case-Shiller encontramos aqui algumas diferenças que vale a pena frisar. Enquanto que o número de proprietários atingiu o seu pico em 2004, o valor do S&P Case-Shiller (índice que mede o valor da habitação unifamiliar nos Estados Unidos) atingiu o seu pico 2 anos depois.

Por outro lado, este índice encontra-se agora a valores de 2000, enquanto o S&P Case-Shiller está agora a “cotar” a valores de 2003. Encontramos, pois, um desfasamento de cerca de 2 a 3 anos entre estes dois índices.

E no futuro, haverá lugar para descer ainda mais? Fazendo aqui uma “malandrice”, o gráfico parece estar a formar uma formação Head & Shoulders (H&S), abrindo lugar para novas descidas…


Bons negócios (imobiliários)!

quinta-feira, 3 de Setembro de 2009

The S&P Case Shiller - III

Deixo-vos hoje, na volta de férias, uma entrevista com David Rosenberg, da Gluskin Sheff & Associates.

Logo no início, ele fala-nos do S& P Case Shiller e do que está por trás dos mais recentes movimentos deste índice. Concordo em absoluto com David Rosenberg. Já aqui o escrevi e volto a frisar: parece-me que os mais recentes movimentos em alta do índice podem ter sido "forçados" pelas políticas locais encetadas.

Agora que essas políticas já foram implementadas, resta saber se voltarão ao mercado as distressed sales que poderão forçar, de novo, um movimento em baixa.

Podem ver o vídeo
aqui.

Bons negócios (imobiliários)!

quarta-feira, 12 de Agosto de 2009

O Mercado de Habitação nos EUA

Hoje deixo-vos uma entrevista na Bloomberg Television com Dan Alpert da Westwood Capital, que nos fala sobre o mercado de habitação nos Estados Unidos.

Dan Alpert estima que o mercado de habitação desvalorize 40%, contra os 28% projectados por ele próprio há um ano. Se olharmos para o S&P Case Shiller, estamos actualmente perante uma desvalorização próxima dos 33%, face aos máximos verificados no final 1º semestre de 2006, o que significa que ainda teríamos alguma descida pela frente…

Outro aspecto curioso, relaciona-se com o múltiplo da habitação, já referenciado na última Real Estate & Finance Newsletter. No pico do mercado, o múltiplo renda/valor atingiu 28 vezes, quando historicamente esse valor rondava 13 vezes. Ou seja, passamos de yields históricas de 7,5%-8% para 3,5%!

Podem ver o vídeo
aqui.

Bons negócios (imobiliário)!

sexta-feira, 7 de Agosto de 2009

Será a altura ideal para comprar casa?

Deixo-vos hoje um excerto do programa "A Cor do Dinheiro", da RTP-N, sobre o estado actual do mercado de habitação nacional. Os entrevistados são Miguel Poisson da ERA Portugal e Paulo Dias Pereira do Barclays Bank.

Achei fantástica a expressão do Director Comercial do Barclays, «as excelentes taxas»... Um spread de 1,4 pp é uma excelente taxa?! Quando clientes meus me dizem que os bancos estão a oferecer spreads de 2,5, 3 ou mesmo 4 pp, até me arrepio só de pensar nas taxas que estarão a pagar daqui a 2, 3 ou 4 anos.

Essas "excelentes taxas" estão a ser-nos dadas pelo BCE, não pelos Bancos Comerciais. E quando a Euribor voltar a 3% ou 4%?

Acho que já falei sobre este assunto mas volto a repetir: caps e floors são instrumentos financeiros que os Promotores devem utilizar agora.

Podem ver o vídeo
aqui.

quinta-feira, 30 de Julho de 2009

Entrevista com Robert Shiller

Deixo-vos hoje uma entrevista na Blomberg com Robert Shiller, co-fundador do índice S&P Case-Shiller.

Podemos aqui ouvi-lo falar sobre o mercado de habitação norte-americano. O cenário actual parece bom: os preços cairam muito e aparentam estar a chegar a uma base mais sólida. No entanto, tudo dependerá da Economia... é como dizia o outro: é a Economia, estúpido!

Podem ver o vídeo
aqui.

Boas férias e bons negócios (imobiliários)!

quarta-feira, 22 de Julho de 2009

Entrevista com Noriel Roubini

Deixo aqui uma entrevista com Noriel Roubini à CNBC, o "Dr. Doom", que nos fala sobre o actual cenário macroeconómico e sobre a recuperação da economia.

Não se esqueçam de deixar passar primeiro a publicidade.

Podem vê-la aqui.

Bons negócios (imobiliários)!

quarta-feira, 15 de Julho de 2009

Real Estate & Finance Newsletter nº6 - Fundos de Investimento Imobiliário

Antes de ir de férias, não poderia deixar de vos disponibilizar mais uma edição da Real Estate & Finance Newsletter, desta feita dedicada ao tema dos Fundos de Investimento Imobiliário.

Podem fazer o download aqui.

Bons negócios (imobiliários)!... e boas férias!

terça-feira, 14 de Julho de 2009

O Estado do Commercial Real Estate - II

Como me parece que este assunto é importante e muito actual, coloco aqui mais um vídeo, com uma entrevista a Brint Davis da Alliance Commercial que nos fala sobre o estado do Commercial Real Estate.

A "ticking time bomb". Subida das cap rates, descida do consumo, aumento dos defaults na dívida, tudo combinado e temos uma bomba prestes a rebentar. Em média, o mercado tem observado desvalorizações entre 30% a 35% fruto da combinação destes factores o que, para LTV's originais de 70% faz com que entremos já numa zona de negative equity.

Como refinanciar este mercado?

Por cá, a minha percepção é que a situação não é diferente. Proprietários de espaços comerciais, hoteleiros, participantes de Fundos Imobiliários Fechados... todos eles estarão a experimentar a mesma realidade: descida do valor dos seus activos, elevadas alavancagens e, em alguns casos, negative equity.

Um trabalho cuidadoso e especializado sobre estes activos é fundamental para que se consiga proceder ao refinanciamento dos mesmos. Não basta levar a cabo uma avaliação; é necessário conhecer bem os mercados em que se inserem, analisar bem a procura e a concorrência e proceder a uma cuidada projecção de cash-flows para verificar se estes activos conseguem fazer face ao serviço da dívida.

Podem ver o vídeo aqui.

Bons negócios (imobiliários)!

quinta-feira, 9 de Julho de 2009

O Estado do Commercial Real Estate

Anthony Paolone, da JP Morgan Chase & Co, fala-nos sobre o estado do Commercial Real Estate e dos REIT nos Estados Unidos.

Crescente aumento do desemprego, das vacancy rates no mercado de escritórios e o elevado endividamento dos Promotores Imobiliários são razões para um cenário negro no Commercial Real Estate.

Aliás, a alavancagem é um dos factores apontados para Anthony Paolone preferir REIT's ao investimento em Promotores, dado estes estarem mais alavancados que os anteriores, para não mencionar a questão da liquidez, em caso de necessidade de saída do investimento.

Podem ver a entrevista
aqui.

Bons negócios (imobiliários)!

segunda-feira, 6 de Julho de 2009

The S&P Case Shiller Index - II

Coloco aqui um gráfico fantástico, centenário, do Índice S&P Case Shiller. Acho que só o gráfico diz tudo... que boom entre finais de 90 e início do presente século!

Historicamente, em momentos "pós-boom", o índice parece sempre querer voltar à base 100…

Bons negócios (imobiliários)!

terça-feira, 30 de Junho de 2009

Pensar Fora da Caixa - V

O Custo do Capital na Análise de Investimentos Imobiliários

Sempre que tenho de fazer uma avaliação de um investimento ou promoção imobiliária, invisto sempre algum tempo na determinação do custo do capital investido. Mais do que alvitrar um valor, prefiro pensar na localização e características do investimento e compará-lo com benchmarks.

Antes de mais, importa fazer um refresh sobre o conceito de custo de capital e que tipo de custo devemos usar consoante a metodologia e o objectivo da avaliação.

No meu 1º artigo – Pensar Fora da Caixa I – procurei rapidamente explicar a diferença entre o uso do Weighted Average Cost of Capital (WACC) e do Cost of Equity (leveraged e unleveraged). Se quisermos efectuar uma avaliação na lógica da empresa, devemos calcular um Free Cash-Flow to the Firm e usar o primeiro método de taxa de actualização; se procurarmos avaliar o projecto ou investimento na lógica do investidor, deveremos então calcular um Free Cash-Flow to Equity e utilizar a segunda metodologia.




Até aqui, tudo normal. O problema coloca-se nos valores de referência a usar para cálculo das taxas e quais as bases de dados e benchmarks a utilizar. Há que procurar benchmarks para:

- Rf: taxa de juro sem risco;
- Rm: rendibilidade do mercado (ou, em alternativa, prémio de mercado - Rm-Rf);
- β: beta do investimento, risco específico face a outros comparáveis;
- D/E: grau de alavancagem financeira (se não pudermos ou não quisermos usar os dados reais do investimento/projecto em análise).

Quando avaliamos uma empresa que se insere num sector cotado, nacional ou internacional, é fácil usar benchmarks. Existem bastantes bases de dados – eu uso as do Damodaran – que nos apontam betas leveraged e unleveraged, prémios de risco, return on equity e um sem fim de indicadores que são mais que suficientes para estabelecermos o nível de risco do nosso investimento. A informação é, normalmente, actual e fidedigna.

Pelas suas características, nomeadamente a falta de liquidez e falta de informação, no imobiliário já não é tão fácil encontrar indicadores fidedignos e aplicáveis.

Apesar de termos indicadores de empresas europeias cotadas, ou mesmo de REIT’s, tenho sempre alguma relutância em os “trasladar” para a realidade Portuguesa, tão diferente ela é das restantes. Também não tenho por hábito usar as rendibilidades dos Fundos Abertos nacionais, por não os considerar um benchmark adaptável ao tipo de análises que costumo fazer.

Na prática, o que costumo fazer é colocar alguns “prémios” aos benchmarks. Por exemplo, se os prémios de risco actuais rondam os 4% a 5% e eu estou a avaliar um investimento imobiliário na Covilhã, talvez seja mais prudente colocar um prémio de risco superior ao benchmark. Se, por outro lado, os betas não alavancados de REIT’s rondam 0,7 ou 0,8, talvez deva pressupor um beta superior para o mesmo caso.

A base é a mesma mas parece-me mais equilibrado, para investimentos em localizações menos nobres, com produtos menos líquidos, incrementar um pouco as variáveis em causa. Assim, estou a dizer que este investimento é mais arriscado do que outros alternativos, logo o custo do capital investido também deve ser superior.

Tradicionalmente, o investimento imobiliário é bastante alavancado, financiado por recurso a dívida. Normalmente, opto por calcular um cash-flow to equity e saber, na óptica do investidor (exclusivamente do equity), qual o VAL e TIR (quando aplicável) do investimento.

Nesta óptica, e dada a conjuntura actual, com LTV’s elevados, tenho procurado passar essa realidade para os trabalhos que tenho feito para alguns clientes. Ultimamente, tenho optado por modelizar o custo de capital e reflectir no risco do investimento a alavancagem do mesmo. Na verdade, tenho tido algumas surpresas porque, em teoria, o beta alavancado pode ser infinito nos casos em que o equity seja nulo (algo que não está assim tão distante de algumas realidades em Portugal). Convenhamos que isto se torna num enorme problema se queremos depois saber qual o VAL ou a TIR do investimento. É que, nestes casos, dará zero (qualquer número a dividir por infinito, é zero).


No exercício puramente teórico que aqui apresento, procuro simplesmente mostrar que o beta vai crescendo, à medida que alavanco cada vez mais o investimento. Por outro lado, se pressupuser uma TIR objectivo para o caso que esteja a analisar, consigo ver qual o nível máximo de endividamento para que essa dívida compense o meu investimento.


Curioso, ou não, este exemplo teórico leva-nos a outra discussão, de certa forma já aqui falada numa entrevista que coloquei sobre os níveis de alavancagem dos REIT. Até um dado ponto, uma maior alavancagem proporciona algum acréscimo de rendibilidade ao meu investimento mas, a partir de determinado montante, já não compensará até, no limite, resultar numa rendibilidade nula. E, na prática, era isso que Mike Kirby procurava explicar na análise que fez a alguns REIT’s.

Bons negócios (imobiliários)!

terça-feira, 23 de Junho de 2009

Entrevista com Steve Brown

Coloco aqui uma entrevista com Steve Brown, Senior Portfolio Manager da American Century Investment Management. Podemos ouvi-lo falar sobre as mais recentes equity offers no sector de REIT nos Estados Unidos.

Estamos a falar de mais USD 12 Billion nos últimos meses que vieram dar um novo fôlego a este sector.

video

Espero que gostem!

quinta-feira, 18 de Junho de 2009

Novo Pacote Regulatório USA

Coloco aqui uma entrevista ao Presidente Barack Obama a explicar, resumidamente, as alterações que irão ser efectuadas no sistema de regulação financeira nos Estados Unidos da América.

Podem ver o vídeo aqui.

terça-feira, 16 de Junho de 2009

A Importância da Avaliação Imobiliária






Nélson Rêgo, MRICS
nrego@prime-yield.com
Director Geral
Prime Yield






Como qualquer outra actividade de prestação de serviços, a avaliação de bens imóveis foi fortemente influenciada pelo fenómeno da globalização que condicionou, de certa forma, o modus operandi de muitas empresas que actuam nesta área de negócio.

Apesar deste facto, de as economias estarem mais inter-relacionadas e dos investidores poderem escolher o local mais apropriado para aplicarem os seus capitais, ainda existem alguns entraves a esta mobilidade, como é o caso das avaliações de imóveis. Verificam-se, ainda, diferenças fulcrais entre Países, nas práticas e metodologias de avaliação, o que conduz a decisões de investimento fundamentadas em pressupostos errados, tal como se verificou, em 1996, com o Bangkok Bank of Commerce que entrou em colapso devido a deficientes avaliações do portfólio imobiliário que detinha.

Tornou-se imperioso standardizar as práticas como os bens são avaliados e descritos. Importa, em primeiro lugar, salientar a diferença entre metodologias e práticas. As metodologias das avaliações são dinâmicas, variam consoante o caso concreto em análise, ao invés das práticas que são regras impostas pela consciência de cada avaliador, pelas associações de classe ou pela lei.

Essas regras abrangem a ética, a conduta e a competência necessárias para o desempenho da actividade de avaliação imobiliária. Existem, a nível internacional, várias organizações que, ao longo dos anos, se têm preocupado com esta temática, nomeadamente:

- RICS – Royal Institution of Chartered Surveyors, que é uma organização, actualmente, com cerca de 150 000 membros em 120 Países. O RICS assume um papel de especial relevância após o crash de 1974 no Reino Unido, uma vez que publicou, em 1976, o “red book”, que com as suas actualizações, continua a ser uma referência para os seus membros, como manual de procedimentos na avaliação imobiliária. Os principais objectivos deste manual estavam relacionados com a melhoria das práticas;

- Tegova – European Group of Valuers Associations, foi fundada em 1977, diferencia-se da organização anterior pelo facto de ser pan-europeia e pelos seus membros serem associações de profissionais, 26 actualmente, ligados à avaliação imobiliária. Esta organização teve como missão inicial conceber e promover a aplicação das European Valuation Standards, bem como representar, junto da União Europeia, os interesses dos avaliadores imobiliários.

Muito mais poderia ser referido acerca das duas organizações anteriormente apresentadas. No entanto, não é o que se pretende com um artigo desta natureza. O que existe de transversal em relação ao RICS e à TEGOVA é o facto de ambas pretenderem uma normalização de práticas a utilizar na avaliação de bens imóveis, com o intuito de facilitar as acções de todos os intervenientes envolvidos na transacção de um imóvel.

O futuro, sem rejeitar o que existe de bom do passado, será feito por uma normalização de procedimentos e concomitantemente por um reforço da ética dos profissionais ligados à avaliação imobiliária. O profissionalismo neste sector será cada vez mais uma certeza.

sexta-feira, 12 de Junho de 2009

Sinais de Estabilidade nos REIT

Brad Case da National Association of Real Estate Investment Trusts (NAREIT) e Daniel Alpert da Westwood Capital discutem o estado actual do sector de REIT nos Estados Unidos.

Podem vê-lo no link em baixo.


Enjoy!

http://www.cnbc.com/id/15840232?play=1&video=1148220349

quinta-feira, 11 de Junho de 2009

As Sociedades de Reabilitação Urbana





Adriana Floret (com David Afonso)
adriana.floret@gmail.com
Adriana Floret, Arquitectura, Lda.








As Sociedades de Reabilitação Urbana (SRU) aparecem como a mais recente estratégia de reabilitação dos centros históricos degradados e foram instituídas pelo Decreto-Lei nº 104/2004, de 7 de Maio. Trata-se de sociedades de capitais exclusivamente públicos, podendo algumas delas constituírem-se a título excepcional e apenas em caso de interesse público sob a figura jurídica de sociedades anónimas de capitais públicos repartidos entre o estado central e o município. Neste caso, estamos perante uma sociedade gerida por uma administração nomeada pelos poderes públicos, dotada de capitais públicos, com uma missão que resulta de um consenso e mandato político, mas que é de direito privado. Em todo o caso, a grande maioria das SRU’s constituídas até ao momento optaram por não se constituírem enquanto sociedades anónimas.

Seja qual for o caso, o diploma sublinha o carácter excepcional do regime jurídico das SRU’s que só é aplicável nas «áreas críticas de recuperação e reconversão urbanística” (ACRRU), constituídas sobretudo nas zonas urbanas históricas (ZUH). A prevalência deste regime excepcional depende da obediência a certos princípios:

- A responsabilidade da reabilitação urbana cabe aos municípios;
- Os municípios podem constituir sociedades de reabilitação urbana para as quais transferem poderes de autoridade e polícia administrativa;
- Todo o procedimento de reabilitação urbana deve ser controlado pelos poderes públicos;
- Os direitos e obrigações dos proprietários e arrendatários devem ser ponderados;
- Os promotores privados devem ser economicamente incentivados;
- O processo deve ser célere.

Não obstante o dito carácter excepcional destas sociedades, estas rapidamente se impuseram no panorama nacional existindo, neste momento, várias cidades que já adoptaram ou estão em fase de adopção deste modelo de intervenção urbana: Coimbra, Lisboa, Porto, Fátima, Viseu, Évora, Vila Real de Santo António, Vila Nova de Gaia, Sintra, Leiria, Covilhã, Oeiras, Torres Novas, Cadaval, Seia e outras ainda por vir. Perante tal proliferação será de perguntar se a excepção não correrá o risco de se tornar na regra. Acresce ainda dizer que as autarquias que assim o entendam, podem levar a cabo processos de reabilitação apoiados nesta legislação sem que para isso tenham de formalizar SRU´s.

Qual o objectivo destas novas sociedades? Em primeiro lugar, reabilitar áreas urbanas classificadas como zonas históricas em plano municipal de ordenamento do território centrando-se, sobretudo, na requalificação do parque habitacional tendo em vista o repovoamento dos centros urbanos. Em segundo lugar, desenvolver e promover áreas de negócio como complemento à função habitacional e como factor de atracção de novos habitantes e de mais investimentos. Em terceiro lugar, revitalizar o espaço público, melhorando as acessibilidades, infra-estruturas e mobiliário urbano. Em quarto lugar, dinamizar o turismo, cultura e lazer.

Entende-se por reabilitação urbana o «processo de transformação do solo urbanizado, compreendendo a execução de obras de construção, reconstrução, alteração, ampliação, demolição e conservação de edifícios, tal como definidas no regime jurídico da urbanização e da edificação, com o objectivo de melhorar as suas condições de uso, conservando o seu carácter fundamental, bem como o conjunto de operações urbanísticas e de loteamento e obras de urbanização que visem a recuperação de zonas históricas e de áreas críticas de recuperação e reconversão urbanística» (Silva, 2007). Esta concepção é restritiva, acantonando a reabilitação urbana no conjunto de procedimentos de intervenção física sobre o edificado e é apenas para este sentido que a legislação nos remete. No entanto, a política das SRU’s vai invariavelmente para lá desta delimitação legal, assumindo uma outra concepção de reabilitação urbana no seu lato sensu: «A reabilitação urbana consiste numa política urbana que procura a requalificação da cidade existente, desenvolvendo estratégias de intervenção múltiplas, que dão origem a um conjunto de acções coerentes e de forma programada, destinadas a potenciar os valores sócio-económicos, ambientais e funcionais de determinadas áreas urbanas, com a finalidade de elevar a qualidade de vida das populações residentes, melhorando as condições físicas do seu parque edificado, os níveis de habitabilidade e de dotação em equipamentos comunitários, infra-estruturas, instalações e espaços de uso público» (Silva, 2007). A legitimação desta concepção alargada de reabilitação urbana não será feita por via de diploma legal, mas através de um documento de natureza diversa e que nem sequer é previsto na redacção do decreto 104/2004 que são os chamados estudos de base.

Os estudos de base são um instrumento preliminar que justificam a delimitação das áreas de intervenção prioritária, a metodologia e os meios a convocar para esse fim. São, portanto, simultaneamente instrumentos normativos e de diagnóstico. O desenho dos contornos das Zonas de Intervenção Prioritária (ZIP) deve ser precedido de um diagnóstico que identifique as características da estrutura urbana, do edificado e situação cadastral das áreas de intervenção, por um lado, e, por outro, que identifique as principais dinâmicas económicas, sociais e do mercado imobiliário. Este diagnóstico deve ser ainda enquadrado num contexto mais vasto, abrangendo os concelhos limítrofes, a região onde se encontra o concelho, chegando à escala do território nacional. Para além do diagnóstico, os estudos de base podem igualmente sugerir estratégias de intervenção que podem englobar diversos aspectos desde da definição das tipologias da habitação a desenvolver, até à identificação dos potenciais parceiros, passando pela definição dos mercados-alvo e das necessidades a nível da infra-estrutura. Estes estudos de base assumem diversas formas, sendo algumas vezes da responsabilidade das próprias SRU’s, outras vezes de entidades externas contratadas para esse fim.

Bibliografia:
AAVV (2004). Estudo Estratégico para o Enquadramento de Intervenções de Reabilitação Urbana da Baixa do Porto. Porto: FEUP
METELLO, Francisco C. (2008). Manual da Reabilitação Urbana. Legislação anotada e comentada. Coimbra: Almedina
MILÃO, Susana (2006). A “Cidade Criativa” e os modelos de regeneração urbana. Para uma análise crítica das Sociedades de Reabilitação Urbana. Porto: FEUP (Tese de Mestrado)
SILVA, Hugo. M. (2007). Estudo das metodologias de reabilitação urbana em zonas históricas – Sociedades de Reabilitação Urbana. Lisboa: Instituto Superior Técnico (IST)

quarta-feira, 10 de Junho de 2009

Distressed Opportunities

E agora aqui vai a 2ª parte da entrevista com Mike Kirby, desta vez a falar sobre distressed opportunities nos REIT.

Muito interessante, fala-se do mercado imobiliário, do custo de capital investido, do mercado de REIT no futuro.

Sempre que ouço falar dos montantes que o mercado imobiliário norte-americano necessita para recapitalizar a indústria... até me arrepio!

Mas, claramente, estamos a atravessar uma fase de... "chuta para canto"! Tenho a percepção que grande parte das medidas que estão a ser tomadas (onde se incluem as revisões dos financiamentos e o aumento dos prazos de reembolso) servem fundamentalmente para adiar a resolução de um problema que não está, de todo, resolvido.

O momento actual, ao que parece, ainda não é interessante para a entrada de novo equity no mercado. Os "descontos" são ainda baixos.

Mas há-de haver um dia em que o problema terá de ser resolvido e, nesse momento, quem se chegará à frente?

Bons negócios (imobiliários)!

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sexta-feira, 5 de Junho de 2009

REIT Leverage

Mike Kirby, Chairman and Director of Research at Green Street Advisors Inc., fala-nos um pouco, nesta entrevista, sobre os níveis de leverage dos REITS, nos Estados Unidos.

O curioso para mim, nesta entrevista, foi saber que existe uma forte correlação entre alavancagens superiores e baixas rendibilidades, quando a teoria sempre nos disse o contrário...

Bons negócios (imobiliários)!

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terça-feira, 26 de Maio de 2009

O Ponto de Vista Jurídico da Reabilitação Urbana - II




Maria Margarida Torres
mtorres@fcguerreiro.com

Franco Caiado Guerreiro & Associados





Proposta de Lei n.º 226/X (4ª)

O Governo aprovou uma Proposta de Lei n.º 226/X (4ª), relativa ao novo regime jurídico da reabilitação urbana que prevê, em situações extremas, que os proprietários poderão ser forçados a vender ou arrendar os seus imóveis ou a fazer obras coercivas.

A legislação proposta tem por objectivo:

- A articulação do dever dos privados de regeneração dos edifícios com a responsabilidade pública de modernização das infra-estruturas e equipamentos das áreas a reabilitar;

- A garantia da complementaridade e coordenação entre os diversos actores, aplicando recursos em operações integradas de reabilitação nas "áreas de reabilitação urbana", cuja delimitação incumbe aos municípios e nas quais serão intensificados os apoios fiscais e financeiros;

- A diversificação dos modelos de gestão das operações de reabilitação urbana, hoje centrados nas sociedades de reabilitação urbana (SRU's), existindo novas oportunidades de intervenção dos proprietários e outros parceiros privados;

- A agilização dos procedimentos de controlo prévio das operações urbanísticas de reabilitação;

- O desenvolvimento de novos instrumentos que permitam equilibrar os direitos dos proprietários com a necessidade de eliminar os obstáculos à reabilitação.

Neste sentido são concedidos aos proprietários apoios e incentivos fiscais e financeiros destinados à reabilitação urbana, sendo ainda possibilitada a criação de fundos de investimento imobiliário dedicados ao fim acima referido e a atribuição de apoios financeiros do Estado e dos municípios às entidades gestoras das operações de reabilitação urbana, as quais poderão corresponder ao próprio município ou a empresas do sector empresarial local.

Pelo exposto, conclui-se pela indispensabilidade da reabilitação urbana tanto no que concerne à política das cidades como à política de habitação, revelando-se uma prioridade para a intervenção urbanística e para o desenvolvimento harmonioso e sustentável das cidades.

quinta-feira, 21 de Maio de 2009

O Ponto de Vista Jurídico da Reabilitação Urbana - I






Por Margarida Torres
mtorres@fcguerreiro.com

Franco Caiado Guerreiro & Associados



Reabilitação Urbana

A reabilitação urbana encontra-se actualmente prevista em diversos diplomas como o Regulamento do Plano Director Municipal de Lisboa, o Regime Jurídico da Urbanização e Edificação (RJUE) – lei n.º 60/2007 de 4 de Setembro, que procede à sexta alteração ao DL 555/99 de 16 de Dezembro e o DL n.º 104/2004 de 7 de Maio.

Processo de Licenciamento - Demolir ou Reabilitar?

Cumpre em primeiro lugar referir que o Espaço Urbano integra diversas áreas delimitadas na Planta de Classificação do Espaço Urbano: a) Áreas Históricas; b) Áreas Consolidadas; c) Áreas de Estruturação Urbanística; d) Áreas de Reconversão Urbanística, entre outras.

As zonas históricas urbanas assumem grande relevância, pois a sua conservação, recuperação e readaptação constituem um verdadeiro imperativo nacional.

Nas áreas históricas habitacionais, a construção de novas edificações depende da possibilidade de demolição dos edifícios existentes, sendo sempre necessário ter em consideração a avaliação do seu interesse histórico, cultural, arquitectónico e urbanístico.

Deste modo, os pedidos de demolição e de construção devem ser simultâneos, de modo a que o licenciamento ou a comunicação prévia, seja equacionado de forma integrada, e precedido das vistorias, consultas ou pareceres de que depende a operação de demolição.

A lei pretende assim, que só seja possível proceder-se à demolição dos edifícios, após prévio licenciamento ou admissão de comunicação prévia relativa a uma nova construção para o local, exceptuando-se os casos em que ocorra risco iminente para a segurança de pessoas e bens.

A demolição para substituição de edifícios existentes só poderá ser autorizada nos casos especificados na lei, nomeadamente em caso de ruína iminente do edifício, comprovada por vistoria municipal; quando o edifício for considerado de manutenção inconveniente, esteja abandonado ou obsoleto, não tenha interesse cultural, arquitectónico, entre outros.

A lei visa ainda, nas obras de construção, quer se destinem ou não a substituir o edifício demolido, a obtenção do nivelamento da cércea e da altura total das novas construções.

Mais se evidencia que os edifícios devem ser sujeitos a obras de conservação, no mínimo, uma vez de oito em oito anos, “devendo o proprietário, independentemente desse prazo, realizar todas as obras necessárias à manutenção da sua segurança, salubridade e arranjo estético”, podendo a Câmara Municipal, em qualquer altura, determinar a execução das referidas obras de conservação.

Realização Coerciva de Obras

Acresce ainda que a Câmara Municipal detém o poder de ordenar a demolição parcial ou total das construções que ameacem ruir ou que constituam perigo para a segurança e saúde pública.

Importa também referir que o RJUE consagrou a proibição da deterioração que consiste na proibição de o proprietário ou qualquer terceiro deteriorar ou agravar a deterioração de um edifício ou impedir o seu arranjo.

Realça-se ainda a faculdade atribuída à Câmara Municipal de poder tomar posse administrativa do imóvel e, posteriormente executá-lo, no caso do proprietário não cumprir os prazos que lhe foram impostos para iniciar ou concluir as obras.

Sempre que for necessário, para proceder à realização das obras, a Câmara Municipal pode ordenar o despejo parcial ou total dos edifícios, sendo que o mesmo poderá ocorrer no prazo de 45 dias a contar da notificação dos seus ocupantes.

Segundo o regime de reabilitação urbana em vigor a responsabilidade do procedimento de reabilitação urbana cabe, em primeiro lugar, a cada município, havendo por isso, a possibilidade dos municípios criarem sociedades de reabilitação urbana às quais são atribuídos poderes de autoridade e de polícia administrativa como os de expropriação e de licenciamento.

Cumpre evidenciar a atribuição aos poderes públicos dos meios efectivos de intervenção e de controlo de todo o procedimento de reabilitação, existindo, contudo uma ponderação dos direitos e obrigações dos proprietários e do equilíbrio na protecção dos direitos dos arrendatários.

Todavia, reafirma-se o princípio geral de que é aos proprietários que cabe promover a reabilitação dos seus imóveis, estando o referido princípio novamente previsto e evidenciado na Proposta de Lei nº226/X (4ª) que aprova o regime jurídico da reabilitação urbana, e da qual aqui vos daremos conta num próximo artigo.

quarta-feira, 13 de Maio de 2009

Fundos Imobiliários de Reabilitação Urbana - II


João Fonseca

Director
Área de Fundos de Investimento Imobiliário
Orey Gestão de Activos, SGFIM, SA





Enquadramento

Os fundos de investimento imobiliário surgiram há 20 anos, com o objectivo de proporcionar aos pequenos aforradores a possibilidade de investir em imobiliário, uma actividade que, como é sabido, exige elevados montantes de investimento. Desde a sua criação, a legislação da actividade dos fundos imobiliários tem vindo a evoluir, procurando adaptar-se às necessidades do mercado, através de uma maior flexibilização e, por outro lado, através de uma maior especialização.

Em termos de flexibilização dos fundos, podemos referir a evolução para os fundos fechados, os fundos especiais de investimento e os fundos mistos. Neste último exemplo, o mercado não foi capaz de aproveitar a flexibilidade concedida, pelo que não existem fundos mistos em actividade.

Tal como já tivemos oportunidade de mencionar no nosso anterior artigo, de entre os fundos imobiliários especializados, ressaltam os fundos florestais, os recentes fundos de arrendamento habitacional e os fundos de reabilitação urbana.

A legislação específica dos fundos de reabilitação urbana surgiu com o Orçamento de Estado para 2008, e está vertida, actualmente, no Artº. 71º do Estatuto dos Benefícios Fiscais, na Parte III, “Benefícios fiscais com carácter temporário”.

Os fundos de investimento imobiliário em reabilitação urbana são fundos, abertos ou fechados, que se constituam entre 1 de Janeiro de 2008 e 31 de Dezembro de 2012, e nos quais pelo menos 75% dos activos sejam bens imóveis sujeitos a acções de reabilitação localizados em áreas de reabilitação urbana.

O EBF define um regime fiscal específico para os fundos de reabilitação urbana:

- Regime fiscal dos fundos de reabilitação urbana

Os rendimentos de qualquer natureza obtidos por fundos de reabilitação urbana encontram-se isentos de IRC. Esta isenção mantém-se enquanto se verificarem os requisitos que definem os termos dos fundos de reabilitação urbana. Cessando algum dos requisitos, aplica-se o regime fiscal geral aplicável aos fundos imobiliários (definido no Artigo 22º do EBF);

- Regime fiscal dos participantes em fundos de reabilitação urbana

Os rendimentos respeitantes a unidades de participação de fundos de reabilitação urbana distribuídos aos participantes são sujeitos a retenção na fonte em sede de IRS ou de IRC, à taxa de 10%, excepto quando os titulares dos rendimentos sejam entidades isentas ou entidades não residentes sem estabelecimento estável em território português.

Quando os titulares de rendimentos respeitantes a UP’s nos fundos de reabilitação urbana englobem os rendimentos que lhes sejam distribuídos, têm direito a deduzir 50% dos rendimentos relativos a dividendos.

As mais-valias com a venda de unidades de participação em fundos de reabilitação urbana são tributadas à taxa de 10%, quando os titulares sejam sujeitos passivos de IRS ou entidades não residentes.

Dificuldades dos fundos de reabilitação urbana

Apesar destes benefícios bastante apelativos, e de existirem vários exemplos de fundos imobiliários a desenvolver actividade na área da reabilitação urbana, ainda não existe nenhum fundo de reabilitação urbana em actividade, ou sequer autorizado pela CMVM.

De acordo com as estatísticas mais recentes da CMVM, de Março, os projectos de reconstrução de reabilitação representam apenas 1,5% (156 M Eur) do total dos fundos imobiliários, e tratam-se de apenas 8,6% de todos os projectos de construção em desenvolvimento nos fundos (1.817 M Eur). A justificação possível para este valor tão reduzido, para além das dificuldades inerentes ao desenvolvimento de projectos de reabilitação urbana, será o reduzido peso que o segmento da habitação tem nos fundos imobiliários (11,5%, com 1.194 M Eur).

Se tivermos em consideração todos os incentivos aos fundos de reabilitação urbana, podemos questionar-nos sobre o que tem impedido a sua criação. Por que razão, passado um ano, ainda não está em actividade um único fundo de reabilitação urbana? As razões, ao nível dos fundos, que justificam esta ausência podem ser várias:

- Especialização do fundo: 75% dos activos do fundo têm de ser imóveis sujeitos a acções de reabilitação urbana em zonas de reabilitação urbana, o que restringe demasiado o espaço geográfico de actuação e o tipo de intervenção a fazer nos imóveis;

- Fundo de promoção imobiliária: um fundo de reabilitação urbana vai necessariamente desenvolver uma forte componente de promoção imobiliária, pelo que o perfil de risco dos participantes é diferente do investidor num fundo de rendimento e o horizonte de investimento é mais longo, exigindo uma imobilização de capital por um período superior a outros tipos de fundos;

- Segmento imobiliário: a reabilitação urbana nos centros históricos tem uma componente habitacional muito elevada, onde, tradicionalmente, os fundos imobiliários portugueses não têm investido;

Existem outras razões, que se prendem com a especificidade do investimento na reabilitação urbana, como sejam:

- Licenciamento mais complicado e moroso: as intervenções em bairros históricos e zonas classificadas obrigam ao cumprimento de exigências regulamentares mais restritas;

- A dimensão mínima crítica dos projectos: a escala de intervenção que os fundos imobiliários procuram tradicionalmente nem sempre é viável na reabilitação urbana;

- Intervenção de construção especializada e com custos mais elevados: as empreitadas de reabilitação exigem empresas com conhecimentos específicos os riscos de derrapagem nos custos são mais elevados;

- A existência de inquilinos: o realojamento de inquilinos ou a negociação da rescisão de contratos é um processo demorado e sujeito a inúmeros imponderáveis;

- Entre inúmeras outras.

O futuro dos fundos de reabilitação urbana

Para ultrapassar as dificuldades específicas das intervenções de reabilitação urbana, os fundos imobiliários de reabilitação urbana necessitam de flexibilidade:

- Flexibilidade na escolha das zonas e dos imóveis onde intervir;

- Flexibilidade na decisão do tipo de intervenção a fazer no imóvel – recuperação, remodelação, reconstrução, etc.;

- Flexibilidade nas decisões de entrada ou saída de um projecto;

- Flexibilidade na negociação com inquilinos – contrapartidas a oferecer;

Na realidade, os fundos de reabilitação urbana são fundos especializados, e essa especialização retira-lhes a flexibilidade de que tanto necessitam para vingar na área da reabilitação urbana.

A ausência de reacção das sociedades gestoras e do mercado à legislação que entrou em vigor há mais de um ano é indicador: a) da falta de interesse nestes fundos – o que não nos parece inteiramente justo, dadas as vantagens acima referidas; ou b) das dificuldades em desenvolver fundos que sejam capazes de cumprir os requisitos legais para se tornarem fundos de reabilitação urbana.

Torna-se assim necessário rever as exigências legais que regem a concessão dos benefícios aos fundos de reabilitação urbana, por forma a que sejam efectivamente utilizados estes veículos como forma de dinamização das acções de reabilitação dos centros históricos e zonas degradadas das cidades.

A janela de oportunidade para a constituição dos fundos de reabilitação urbana termina em 31 de Dezembro de 2012. Esperemos que, até lá, se criem as condições necessárias no mercado para o desenvolvimento de fundos de reabilitação urbana, e não se repitam os mesmos erros que se verificaram com outras formas de fundos, como os fundos mistos.

Reabilitem os negócios (imobiliários)!

terça-feira, 5 de Maio de 2009

Fundos Imobiliários de Reabilitação Urbana - I




João Fonseca
Director
Área de Fundos de Investimento Imobiliário
Orey Gestão de Activos, SGFIM, SA



Este artigo está dividido em duas partes: na primeira fazemos uma introdução genérica à reabilitação urbana, e, na segunda, abordamos o tema referido no título: os fundos imobiliários de reabilitação urbana.

O que é a reabilitação urbana?

Todos temos uma noção do que é a reabilitação urbana, mas a definição mais relevante para quem procura obter algum dos benefícios fiscais que lhe são atribuídos (IVA reduzido, isenções de IMI e IMT, entre outros), é apresentada nos Estatutos dos Benefícios Fiscais:
“[...] entende-se por reabilitação urbana o processo de transformação do solo urbanizado, compreendendo a execução de obras de construção, reconstrução, alteração, ampliação, demolição e conservação de edifícios, tal como definidas no Regime Jurídico da Urbanização e da Edificação, com o objectivo de melhorar as condições de uso, conservando o seu carácter fundamental, bem como o conjunto de operações urbanísticas e de loteamento e de obras de urbanização, que visem a recuperação de zonas históricas e de áreas críticas de recuperação e reconversão urbanística, sendo tal reabilitação certificada pelo Instituto da Habitação e da Reabilitação Urbana ou pela câmara municipal, consoante o caso.” (EBF, Artº. 45º, nº 3).

Refira-se que no Art. 71º do EBF, são apresentadas igualmente as definições de “acções de reabilitação” e “área de reabilitação urbana” aplicáveis na atribuição de benefícios aos fundos de reabilitação urbana.

Ponto de situação da reabilitação urbana em Portugal

De acordo com o INE (valores de 2007), em Portugal, o peso da reabilitação urbana (projectos de alteração e ampliação) no segmento da habitação é de apenas 17,4%, um valor bastante inferior à média Europeia que se situa perto dos 45%.

Se tivermos igualmente em consideração que, num total de 5,6 milhões de alojamentos familiares existentes em Portugal, se estima que cerca de 800.000 (14%) exijam reparações médias, grandes, ou muito grandes, facilmente verificamos que a reabilitação urbana é um imperativo nacional.

Há negócio na reabilitação urbana?

Como será do conhecimento de todos, a característica mais importante de um imóvel é a sua localização. Os imóveis-alvo da reabilitação urbana têm, em regra, essa característica assegurada, uma vez que se trata, em geral, da recuperação dos imóveis localizados nos centros históricos das cidades.

Por outro lado, o imobiliário, como todos os bens transaccionáveis, está sujeito às leis da procura e da oferta. Mais uma vez, a reabilitação urbana sai a ganhar, pois, por enquanto, a procura nos centros urbanos é superior à escassa oferta.

Estes dois aspectos apontam para que existam oportunidades de negócio na área da reabilitação urbana, embora necessitem de uma análise cuidadosa, pois têm problemas específicos como sejam o licenciamento dos projectos de reabilitação, a dimensão mínima crítica dos projectos, a intervenção de construção especializada, a existência de inquilinos, etc.

Os Fundos Imobiliários de Reabilitação Urbana

De entre os fundos imobiliários especializados, ressaltam os fundos florestais, os recentes fundos de arrendamento habitacional e os fundos de reabilitação urbana.

A legislação específica dos fundos de reabilitação urbana surgiu com o Orçamento de Estado para 2008, e está vertida, actualmente, no Artº. 71º dos Estatutos dos Benefícios Fiscais, na Parte III, “Benefícios fiscais com carácter temporário”.

Os fundos de investimento imobiliário em reabilitação urbana são fundos, abertos ou fechados, que se constituam entre 1 de Janeiro de 2008 e 31 de Dezembro de 2012, e nos quais pelo menos 75% dos activos sejam bens imóveis sujeitos a acções de reabilitação localizados em áreas de reabilitação urbana.

No próximo artigo, falaremos um pouco mais sobre os Fundos Imobiliários de Reabilitação Urbana, nomeadamente o seu enquadramento fiscal e perspectivas futuras.

quarta-feira, 22 de Abril de 2009

PENSAR FORA DA CAIXA - IV

A Procura Imobiliária

Provavelmente ter-se-ão dado conta que temos postado aqui no blog algumas notícias relacionadas com a problemática do pagamento de fees nas transacções imobiliárias. Trata-se efectivamente de assunto que tem gerado alguma discussão dos Estados Unidos. Como devem os fees ser calculados, quem paga, qual o montante? Todas estas questões merecem reflexão...

De certa forma relacionado com esta temática, hoje gostaria de vos falar de uma importante componente do mercado imobiliário – e de qualquer mercado (!) – a procura. O investidor, o comprador de habitação, o ocupador de escritórios, o lojista, todos eles são actores do lado da procura de imóveis, todos eles com necessidades diferentes a serem preenchidas.

A procura imobiliária é, de facto, uma peça fundamental no mercado. Pena é que lhe seja dada tão pouca atenção…

Historicamente, as empresas de mediação imobiliária focam-se no imóvel: a casa que têm para vender, o escritório que têm para arrendar, ou mesmo aquela pequena operação de “investimento” que querem fazer com algum investidor institucional.

Tipicamente, estas empresas trabalham os imóveis e as ferramentas de marketing que têm ao seu dispor: anúncios na imprensa da especialidade, na internet, outdoors, marketing directo, etc.

Acha-se que o imóvel é a peça chave no processo da intermediação imobiliária apenas porque é a peça mais visível, mais palpável. No entanto, sem procura não há oferta.

O mercado imobiliário tratou de trabalhar a oferta incessantemente, fazendo jus às mais criativas técnicas de marketing e vendas. O mercado esqueceu-se da procura.

Agora que atravessamos tempos um pouco mais tempestuosos, ficamos todos à espera que essa face divina do mercado – a procura – apareça, simplesmente porque o mercado sempre trabalhou pouco e mal o lado da procura.

O problema nasce logo na nossa legislação quando refere que a actividade de mediação imobiliária se consubstancia em «acções de prospecção e recolha de informações que visem encontrar o bem imóvel pretendido pelo cliente». A legislação trata, assim, um serviço de procurement imobiliário como uma intermediação, o que não me parece de todo correcto. Parece-me mesmo haver aqui um conflito de interesses: quem trabalha a oferta – leia-se, o imóvel – representa um proprietário. Tipicamente, o mediador imobiliário tenderá a oferecer a quem procura os imóveis que tem em carteira, não se preocupando muito com aquilo que efectivamente o cliente procura.

Há que ser mais profissional e isso implica escolher um dos lados. Trabalhar a procura é muitíssimo diferente que trabalhar a oferta: entender as reais necessidades do cliente que procura, as suas motivações e preocupações, efectuar uma leitura da componente financeira do investimento, são tudo factores cruciais que devem ser independentes de qualquer imóvel.

Sem esquecer a questão dos honorários e de quem os paga: o proprietário do imóvel ou a entidade que o procura? O mercado “habituou-se” a que os honorários sejam pagos pelos donos dos imóveis. Nesta lógica, será correcto estar a representar um cliente que procura um imóvel mas o meu serviço ser pago pelo proprietário do mesmo?

Um serviço especializado de procurements imobiliários urge no mercado como forma de clarificar a actividade de mediação imobiliária, “separar as águas” e prestar um serviço de excelência a uma componente fundamental do nosso mercado: a procura.

Até uma próxima oportunidade, bons negócios (imobiliários)!

terça-feira, 14 de Abril de 2009

PENSAR FORA DA CAIXA - III

Parar para Pensar

Na perspectiva do Promotor e do Investidor Imobiliário, vivemos tempos críticos. A pressão sentida no mercado, pelo congelamento das vendas e do crédito têm, com certeza, representado tempos de alguma angústia.

No entanto, creio que estes momentos deverão ser também aproveitados para reflexão. Essa reflexão deverá assentar em 3 eixos fundamentais: produto, financiamento e fiscalidade.

Relativamente ao produto, dever-se-á pensar como inovar e como corresponder às necessidades do cliente, seja ele investidor, seja consumidor final. Cada caso é um caso mas o arrendamento habitacional parece ser uma (boa) aposta. O mercado está cada vez mais inclinado para esta vertente, por força da menor disponibilidade de crédito à compra. O arrendamento com opção de compra também pode ser uma solução.

Para o investidor, preço e rendibilidade continuam a ditar a regra mas outras formas mais criativas poderão viabilizar alguns investimentos.

Nesta linha de raciocínio, o financiamento é uma variável muito importante. Níveis aceitáveis de loan-to-value (LTV) são, hoje em dia, uma vantagem em renegociar linhas de crédito ou negociar parcerias. Naturalmente, por força da desvalorização dos activos, mesmo LTV’s que anteriormente se consideravam equilibrados, são hoje já algo elevados, obrigando muitos Promotores a terem de reforçar garantias.

Relacionado com a questão do financiamento e também da fiscalidade, vem o veículo de investimento. Hoje em dia, cada vez mais, devemos reflectir cuidadosamente sobre a montagem de um investimento ou promoção imobiliária. O veículo, devidamente montado, pode significar alguma poupança fiscal e financeira, permitindo igualmente efectuar alguma diluição do capital.

No mercado residencial, os FIIAH poderão, eventualmente, constituir um veículo interessante para Promotores Imobiliários disponíveis em repensar o seu produto (para o mercado de arrendamento) e a forma de o financiarem.

A constituição deste veículo de investimento, procedendo eventualmente a alguma dispersão de capital (vendendo Unidades de Participação), permitirá ao Promotor efectuar um encaixe importante num prazo mais curto. Por outro lado, as vantagens fiscais de um FIIAH poderão permitir uma poupança considerável. Finalmente, poderá ser possível ao Promotor renegociar a sua dívida, em termos de prazos e juros, alinhando-a com os cash-flows provenientes do arrendamento, permitindo obter níveis aceitáveis de debt coverage e um return on equity mais condizente com a opção do arrendamento.

Não há fórmulas mágicas mas há, com certeza, a oportunidade de aproveitarmos estes tempos para reflectir, reposicionando produtos, repensando estratégias. A inovação no imobiliário passa também por uma inovação financeira.

Bons negócios (imobiliários)!

sexta-feira, 27 de Março de 2009

Banquetes e Beberetes



Luís Oliveira é Prof. Auxiliar nas disciplinas de Derivados e Investimentos Financeiros na IBS/ISCTE e Consultor no INDEG/ISCTE.

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Neste pequeno artigo procuro sintetizar algumas das minhas preocupações acerca dos mega-investimentos públicos que se encontram em carteira, designadamente a construção do novo aeroporto de Alcochete e da linha ferroviária de alta velocidade e das respectivas infra-estruturas necessárias à sua implementação.

Apesar de alguns críticos colocarem em causa os méritos e a viabilidade técnica e a premente necessidade destas grandes obras, o nosso governo apresta-se para as realizar e, receio, cometer um erro histórico. A resistência ao debate aberto e a teimosia em prosseguir com obras tão polémicas, no mínimo, deixa-nos a pensar sobre os reais motivos que, provavelmente, estarão na sua origem. Do ponto de vista pessoal, penso que existem algumas questões que considero de primeira importância e sobre as quais, me parece, não terem ainda sido convenientemente equacionadas pelos responsáveis políticos. A saber: a viabilidade económica e financeira do investimento e a viabilidade social do financiamento.

A viabilidade económica e financeira do investimento

Há alguns meses li na imprensa diária uma advertência do Prof. Campos e Cunha chamando a atenção para a necessidade de se repensarem os grandes projectos de investimento público. Sendo economista de formação, sou sensível aos argumentos Keynesianos e Neo-Keynesianos que, em absoluto, defendem a necessidade de grandes investimentos públicos como força motriz da aceleração económica e consequente superação da crise com que o mundo inteiro, actualmente, se debate. Tem algum sentido, mas é importante saber se, do ponto de vista económico, estes projectos de investimento público em carteira são ou não criadores de valor reflectindo-se esse valor no rendimento nacional.

Em linguagem menos técnica, perguntar-se-á se tais investimentos trarão riqueza e bem-estar para o país e para os portugueses? Em última análise, é o nosso dinheiro que está em causa e, por conseguinte, também, ainda que numa muito pequena parte, o meu dinheiro. Daí a legítima preocupação, pois ainda está muito presente na memória dos portugueses a última grande epopeia do investimento público que foi o Euro 2004 e os 10 estádios de futebol. Hoje pouca gente (ou mesmo ninguém) tem dúvidas de que esses investimentos foram amplamente destruidores de valor económico e social e resultaram em pesadas responsabilidades para a geração actual e para as seguintes.

Como sabemos, qualquer projecto de investimento necessita de ser financiado. Um mega-projecto de investimento, necessita de um mega-financiamento. Aqui começam a prefigurar-se alguns dos meus receios. Nos últimos anos, o endividamento ao exterior tem vindo a aumentar na razão directa da diminuição da poupança interna e do aumento dos juros dessa mesma dívida. Segundo alguns insuspeitos economistas que têm vindo a alertar para este grave problema, o aumento do endividamento externo tem sido da ordem dos 8 a 10 por cento do PIB ao ano (a continuar, duplica de 8 em 8 anos). Em resultado, e como acontece naturalmente para instituições, empresas e particulares a dificuldade em cumprir com um serviço da divida crescente é cada vez maior, levando a que o risco financeiro do nosso país cresça em conformidade. A crise financeira internacional é um mero acréscimo porque o nosso problema é estrutural e surgiu muito antes da crise.

A Standard & Poors (S&P) anunciou em Janeiro de 2009 um corte substancial no rating da dívida pública de Portugal, um sinal de que as medidas de reforma estrutural do Governo para a economia e para as finanças públicas têm sido insuficientes para criar condições de convergência ao grupo de países com superior qualidade creditícia. Refira-se, a propósito das similitudes com Portugal, que a Grécia no dia 4 de Março colocou uma emissão de dívida a 10 anos com um cupão de 6%, ou seja, um spread implícito de 300 pontos base face à yield dos 10 anos da dívida soberana da Alemanha. Sublinho, na minha opinião a culpa não é da crise. O país é que não tem capacidade empreendedora para prosseguir com um plano de investimentos tão arrojado. Há cerca de 25 trimestres que “desconvergimos” face à média dos países da UE. Vinte e cinco trimestres correspondem a cerca de seis anos!

Voltemos à questão do financiamento dos mega-projectos. Nas condições actuais, diz o Prof. Campos e Cunha, “dada a estagnação da taxa de poupança, um acréscimo de mil euros de investimento significa que, directa ou indirectamente, serão mais mil euros de endividamento ao exterior”. Termino aqui a citação porque não acredito na parte restante do parágrafo.

Acho que o Professor foi muito benevolente com a análise (bem feita) do problema. Nas condições actuais, e tendo em vista o financiamento dos mega-projectos, duvido que haja capacidade de endividamento por parte do Estado a uma taxa de juro inferior a 8-10 por cento ao ano. Uma vez que planeia financiar os tais mega-projectos com base em parcerias público-privadas, teremos de aumentar um pouco aquela fasquia porque os prémios de risco serão, decerto, substancialmente mais elevados. Admitindo que o mega-montante a financiar seria obtido via mercados de crédito a funcionar “normalmente” e não existindo “restrições de quantidade”
[1], penso que o respectivo custo financeiro não ficará abaixo de 12-14 por cento todos os anos, durante muitos anos. Eu sei, corro o risco de, tal como o Prof. Campos e Cunha, ser demasiado optimista quanto a esta estimativa para o custo do financiamento.

Tomando como positivo o incremento dos benefícios económicos e sociais líquidos destes mega-empreendimentos, coloca-se a questão da sua mensuração para, numa base de custo-benefício, contrapor à pesada herança financeira que irá ter de ser suportada. Por enquanto fiquemo-nos apenas pelos méritos económicos que até já foram aferidos por outros brilhantes economistas da nossa praça. Sabendo como é dificil apurar uma taxa de rendibilidade económica e social, admita-se uma rendibilidade apenas económica, antes de encargos financeiros, entre 10-12% ao ano. Nada mal para os tempos que correm, extraordinária, mesmo. Os benefícios para a sociedade decorrentes da implementação dos mega-projectos, traduzidos numa taxa de rendibilidade social, terão de ser muito meritórios para que os mesmos traduzam um valor acrescentado líquido, pelo menos, nulo.

Estou contra o investimento público? Não. Estou contra o mau investimento público. Há alternativas de investimento prioritárias nos chamados sectores estratégicos em relação aos quais temos de selectivamente investir privilegiando questões do tipo: qual o impacto líquido na balança comercial? E na produtividade global do país? E no desenvolvimento de uma indústria competitiva produzindo produtos de elevado valor acrescentado? E, já agora, criadoras de emprego sustentado e qualificado? Tenho dúvidas de que os mega-projectos contemplem satisfatoriamente estes requisitos. A ideia, gasta, keynesiana do abrir e tapar buracos a par do multiplicador do rendimento e da criação de emprego, nos dias de hoje, pode ser uma ideia perigosa. Social e economicamente perigosa. As razões dariam para um novo artigo. Passo à questão seguinte.

A viabilidade social do financiamento

O que vou escrever daqui para a frente é, no mínimo, politicamente incorrecto. Resulta de uma constatação de evidências e factos que ressaltam da observação de uma sociedade, a nossa, na qual deposito pouca esperança. Volto a referir que sou um optimista por natureza e quem me conhece sabe que sim.

Vivemos, ao nível da sociedade global, uma profunda crise de valores os quais estão na base da profunda crise financeira em que o mundo mergulhou. Portugal não escapa. Tanto no que respeita à crise de valores como à crise financeira.

Não me parece que as anteriores gerações de portugueses tenham, nos últimos 20-30 anos, preparado convenientemente as gerações seguintes, por forma a que as responsabilidades futuras de construção e desenvolvimento do país fiquem bem entregues. Um editorial de um diário sobre economia referia que muito dificilmente a classe política poderá convencer as gerações futuras a contribuir para o pagamento das reformas das gerações presentes, se aquelas não estiverem seguras de que também alguém assegurará as suas. Penso que esta questão irá dominar as atenções nos próximos anos.

Com efeito, é notória a constatação de alguns factos que corroem a nossa sociedade, isto é, a actual geração de portugueses:
Os alunos que agridem professores. Os Pais, dos alunos que agridem professores, que agridem outros professores. A selvajaria que grassa entre os portugueses e as portuguesas que diariamente circulam no trânsito das principais cidades. Os cidadãos que desrespeitam, com os seus actos e atitudes, tudo e todos. O facilitismo crescente com que se educam os jovens. A (cada vez maior) vergonha nacional que é a justiça do nosso país. O avanço galopante da criminalidade violenta. Os políticos que se agridem verbalmente em pleno parlamento. A corrupção cada vez maior que roça os “mais” responsáveis e inunda os “menos” responsáveis. O avolumar de dívidas e devedores ao fisco ano após ano. A imigração sem regras e, muitas vezes, imposta de fora. Uma classe média de rastos. Uma classe média-baixa no chão. E uma classe baixa na miséria. O abandono dos mais velhos. A demissão de Portugal pelos portugueses. A ausência de uma verdadeira liderança nacional. A ausência de um projecto e de uma estratégia para o país. E podia continuar já que, a este respeito, muito haveria ainda a dizer.

Na minha opinião, a par dos já realizados estudos de viabilidade técnica e económica, seria imprescindível a realização de um, não menos importante, estudo de carácter social que permitisse ter uma, ainda que limitada, ideia da sociedade que temos e da capacidade que as próximas 3-4 gerações terão para suportar as mega-responsabilidades originadas pelos mega-investimento em carteira. Tratar-se-ia de um estudo de viabilidade social do financiamento. O objectivo seria aferir do perfil sociológico da actual geração de portugueses de forma a podermos extrapolar as características dos que lhes irão seguir. Tal perfil poderia definir a existência de traços de cidadania e de civilidade fundamentais para podermos aferir da capacidade das gerações seguintes enfrentarem as responsabilidades e dificuldades que o futuro lhes poderá trazer. A lista de questões a incluir num inquérito-estudo deste tipo seria muito extensa. As conclusões, provavelmente (ou não?), seriam uma grande surpresa. Acredito que o perfil caracterizador dos portugueses que temos não seria abonatório. Imagino o dos que lhes seguirão.

A quem decide ficará reservada a madrasta tarefa de repensar a viabilidade social do financiamento dos novos mega-projectos de investimento. Se decidir não avançar, prestará um excelente serviço ao país e às gerações futuras.


[1] E que os impactos na liquidez dos bancos não se farão sentir ao nível da penúria de crédito para os restantes agentes da economia, não se limitando, assim, a capacidade concorrencial das nossas empresas e a diminuição do consumo interno pela via do crédito às famílias. Na actual conjuntura económica (exiguidade de liquidez acompanhada de uma reduzida rendibilidade económica nos investimentos) é muito provável que este efeito de “crowding-out” se faça sentir.

terça-feira, 24 de Março de 2009

Real Estate & Finance Newsletter nº5 - Hedge Funds


Olá a todos!

Estamos de volta com mais uma edição da Real Estate & Finance Newsletter, desta vez dedicada ao tema dos Hedge Funds.

Esta edição só foi possível graças ao inestimável contributo da Orey Financial, que efectuou um donativo à Vale de Acór. Por este facto, só podemos agradecer a valiosa ajuda do João Fonseca, do Rogério Celeiro, do Duarte d'Orey e de todos os que dentro da Orey foram inexcedíveis no querer ajudar e estarem aliados a esta nossa "causa".

Podem fazer o seu download aqui.

Esperemos que gostem!

Bons negócios (imobiliários)!

sexta-feira, 20 de Março de 2009

O Plano Obama - V

Mais alguns detalhes sobre o Plano Obama, aqui neste vídeo.

(têm de deixar passar primeiro a publicidade)

http://money.cnn.com/video/news/2009/02/18/news.foreclosure.021809.cnnmoney

Bons negócios (imobiliários)!

segunda-feira, 16 de Março de 2009

Entrevista com Rui Alpalhão


Rui Alpalhão é Presidente da Comissão Executiva da FundBox, Sociedade Gestora de Fundos de Investimento Imobiliário, que gentilmente cedeu uma entrevista (ao seu estilo) a Out of the Box, que agora se publica na íntegra.

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Gonçalo Nascimento Rodrigues (GNR): Que interpretação faz da medida legislativa relativamente à constituição dos FIIAH? Seria algo a considerar pela Fundbox, constituir um FIIAH?

Rui Alpalhão (RA): Da medida legislativa original, i.e., o que vinha no Orçamento de Estado, uma interpretação extremamente favorável, já que se tratava da instituição de um fundo fiscalmente transparente em Portugal.

Se olharmos para o copo meio vazio, que não é a minha preferência, era pouco porque não se estendia aos outros fundos. Se olharmos para o copo meio cheio, que é a minha preferência, era um – bom – princípio.

Com a regulamentação e a ideia peregrina de entregar eventuais mais-valias na venda aos ex-proprietários que não exerceram a opção de compra contratada, deixa de ser um produto colocável junto de investidores, e passa a ser interpretado por mim como uma medida de encaminhamento de créditos mal parados. Como não concedemos crédito na FundBox, deixámos de ter interesse em considerar constituir um FIIAH. Não é para o nosso chinelo.


GNR: O que seria necessário fazer para termos um verdadeiro mercado de arrendamento habitacional (se é que ainda não temos)?

RA: Penso que só falta uma coisa: um sistema judicial que permita despejar, em tempo útil, inquilinos incumpridores.


GNR: Como deve ser conduzida a gestão de uma carteira imobiliária em bear-market?

RA: Depende do estilo de investimento. Um investidor core ou core plus deve parar de comprar e concentrar-se no asset management. Um investidor oportunístico deve adoptar uma postura de “sniper” e dar tiros certeiros (ou seja investimentos de truz) com o seu equity.


GNR: Acha que a legislação portuguesa permite efectuar uma verdadeira gestão de carteira ou uma SGFII quase se assemelha a um Gestor de Condomínios?

RA: Acho que a legislação portuguesa permite fazer quase tudo o que é necessário para gerir carteiras de forma decente, apenas com muito mais trabalho do que o que seria desejável.

Sobre a semelhança com um gestor de condomínios falta-me a experiência necessária – de gestão de condomínios – para responder.


GNR: Que itens mais privilegia na análise de uma oportunidade de investimento imobiliário?

RA: Rentabilidade, rentabilidade, rentabilidade, e, depois destes três critérios, impacto no funding do veículo investidor.


GNR: A lei não proíbe empresas de research e price-targets (no mercado bolsista) de deterem carteiras de títulos sobre os quais se pronunciam. Acha que este conflito de interesses não existe no mercado imobiliário (dada a obrigatoriedade legal de separar as unidades transaccionais das não-transaccionais)?

RA: Acho que os conflitos de interesses são inerentes às casas de investimento – mobiliário ou imobiliário – e que se tratam reconhecendo-os, e impondo padrões rigorosos de deontologia profissional individual.

Se um analista ou avaliador prevarica, a sua licença deve ser cassada. Os efeitos da prevaricação devem recair sobre o profissional individual, para que este esteja devidamente incentivado a comportar-se deontologicamente, mesmo que o seu chefe queira o oposto.


GNR: Que implicações pode ter no mercado imobiliário nacional a descida do rating do Estado Português e o aumento do custo da dívida emitida?

RA: Ainda mais estrangulamento dos investidores core e core plus, que aliás já estavam a ter sérias dificuldades respiratórias.


GNR: Genericamente, como analisa o estado actual da indústria de FII (abertos e fechados) em Portugal? Que desafios prevê termos pela frente?

RA: O estado está jeitoso. O desafio é conseguir persuadir as autoridades a instituir veículos fiscalmente transparentes, de novo (já existiram no início dos anos 90).


GNR: Se fosse um investidor ou promotor imobiliário, que decisões/estratégias estaria a tomar neste momento?

RA: Uma estratégia oportunística, aplicando o meu equity em investimentos a preços obscenamente baixos.


GNR: E enquanto gestor de fundos imobiliários, que conselhos dá (daria) aos detentores das UP’s das carteiras que gere?

RA: The worst vice is advice.

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Rui Alpalhão é Presidente da Comissão Executiva da FundBox e Director dos Mestrados Executivos em Finanças Imobiliárias do ISCTE Business School. Mestre em Gestão de Empresas, Doutor em Finanças, foi Administrador em 4 sociedades gestoras, tendo uma experiência de mais de 20 ano no sector financeiro e imobiliário.

A FundBox é uma Sociedade Gestora de Fundos de Investimento Imobiliário, totalmente independente, gerindo 12 fundos com um Gross Asset Value na ordem dos € 410 Milhões.

A empresa foi fundada em 1992, tendo sido adquirida e reestruturada pelos actuais accionistas em 2002.

Os activos sob gestão são de natureza comercial (escritórios e retalho) e residencial, destacando-se o Estoril Sol Residence, o Santarém Retail Park e dois prédios de escritórios na Av. da Liberdade, em Lisboa.

sábado, 14 de Março de 2009

O Plano Obama - IV

Mais actualizações sobre o Plano Obama:
  • Devedores com rácios entre 80% e 105% podem refinanciar-se a taxa fixa a 15 ou 30 anos;
  • Devedores em default (ou perto dele) podem renegociar os empréstimos com taxas abaixo dos 2%, prazos de amortização até 40 anos e redução de dívida;
  • O Governo norte-americano amortizará até $ 1.000 por ano por cada empréstimo que seja renegociado de acordo com os novos termos e que não observe nenhum default durante 5 anos;
  • Ao todo, estamos a falar de quase 10 milhões de contratos de hipotecas, entre renegociações, alargamento de prazos e redução de taxas de juro.

Olhando para todas as medidas já anunciadas, parece-me que se beneficiam as pessoas, é certo, mas prejudica-se fortemente os investidores. Não nos devemos esquecer que grande parte das hipotecas nos EUA foram "empacotadas" e vendidas por bancos e instituições financeiras sob a forma de Mortgage Backed Securities (MBS) ou outros similares. Quem subscreveu estas MBS fê-lo com uma expectativa de yield, prazo e risco.

O Governo norte-americano, ao alterar as condições do subjacente às MBS, está implicitamente a alterar as condições das próprias MBS.

Também devemos não esquecer que uma das principais fontes de liquidez do mercado hipotecário norte-americano provém de... MBS! Os bancos e agências hipotecárias conseguiram emprestar mais e mais porque conseguiram vender as suas hipotecas. O mercado de investimento em MBS, ao perceber o elevado risco (político) sobre este subjacente, naturalmente irá retrair-se e "secar" o mecado. Ao "secar" o mercado, está-se a "secar" a capacidade do próprio em conceder hipotecas adicionais ou renegociar as existentes, a não ser que seja o Governo a fornecer toda a liquidez...

Pessoalmente, estas não me parecem más medidas (do ponto de vista do cidadão, que é quem mais precisa de ajuda), mas insisto que não me parece que vá conseguir definir um mínimo no mercado. O mercado irá reagir naturalmente, por si só, e encontrar um mínimo. Procurar estipular preços por decreto não me parece que resulte...

Apenas uma nota final: uma nacionalização também prejudica fortemente o investidor/detentor de capital e beneficia o credor (por forte baixa do risco do seu empréstimo). Pelos efeitos e pelas medidas, estar-se-á a nacionalizar o mercado imobiliário norte-americano?

Bons negócios (imobiliários)!

sexta-feira, 6 de Março de 2009

O Plano Obama - III

Deixo-vos aqui um breve vídeo com uma "acesa discussão" na CNBC sobre o Plano Obama.

Se repararem bem, as dúvidas lá são as mesmas que as nossas e financiar algo que está agora com negative equity não parece ser lá muito boa medida...

Adorei a parte do "what about doing nothing? Let the markets work!"

Podem ver o vídeo aqui.

http://www.cnbc.com/id/15840232?play=1&video=1052270756

Bons negócios (imobiliários)!

sábado, 28 de Fevereiro de 2009

Entrevista com António Pena do Amaral

António Pena do Amaral deu uma entrevista a Out of the Box que aqui se publica na íntegra.
A opinião e ponto de vista de todos os que intervêm no mercado imobiliário e financeiro é muito importante para todos nós.
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Gonçalo Nascimento Rodrigues (GNR): Que leitura faz da actual crise? Qual foi a sua origem? Quais as consequências esperadas para a economia nacional e mundial?

António Pena do Amaral (APA): Este assunto tem sido tratado até à exaustão e aos mais diversos níveis. Ao que tudo indica a origem terá estado mais uma vez no sector imobiliário, sendo que desta vez terá sido o lastro de uma mistura explosiva, composta por dinheiro (muito) barato, falta de escrúpulos, falta de bom-senso, ganância e excesso de ignorância.

Julgo que as consequências são já visíveis, sendo a sua dimensão e profundidade ainda imprevisíveis. Pior do que os danos materiais de uma dimensão colossal e ainda em fase de contabilização, são os danos morais e psicológicos, com implicações bem mais profundas e para cuja recuperação será necessária uma terapia mais complexa. Neste caso acho que o factor tempo será fundamental para ajudar a “esquecer” o que se passou, para que um dia possa acontecer tudo de novo. Entretanto as consequências estão aí à vista de toda a gente, com a recessão a deixar de ser um espectro, para passar a ser uma realidade.


GNR: Qual estima ser o impacto (actual e futuro) na indústria dos FII em Portugal?

APA: Vou-me cingir aquilo que entendo ser a realidade dos fundos abertos.

O impacto actual está aí para quem o quiser ver, com os fundos a sofrerem níveis de resgates nunca antes alcançados desde a criação desta indústria em Portugal, tendo tido como consequência imediata níveis de endividamento igualmente inéditos.

As razões que levaram a este estado de coisas terão sido várias: a subida das taxas de juro, entretanto já corrigida, o desconhecimento da realidade por parte de quem investe nestes produtos, a onda de histeria que se criou à volta de qualquer produto que tivesse a palavra “imobiliário” no seu nome e a concorrência “oportunística” mas muito pontual, de produtos de muito baixo risco, concretamente dos depósitos a prazo.

Entretanto as coisas acalmaram, quer porque as taxas de juro e de remuneração dos depósitos baixaram, quer porque os investidores nestes produtos se terão apercebido de que nada de extraordinário, no mau sentido, aconteceu entretanto.

Diria que, se tudo ficasse por aqui, teríamos passado só por um mau período. Mas receio que não seja assim tão simples, pois é natural que a 2ª onda de choque, esta com contornos bem mais reais, esteja agora a chegar. Refiro-me naturalmente à situação económica e ao seu impacto no imobiliário, quer pelo aumento das taxas de desocupação (imóveis devolutos), quer dos incumprimentos, devido às maiores dificuldades em honrar compromissos, nomeadamente o pagamento de rendas. Escamotear esta perspectiva, seria escamotear a realidade e como tal uma prova de grande irresponsabilidade. No entanto, estamos convictos de que a indústria dos FII’s poderá sobreviver e ultrapassar mais esta dificuldade. Mas esta convicção não tem origem somente em fé ou esperança, sempre importantes, embora estrategicamente pouco eficazes, mas sim da leitura que faço daquilo que é, e tem sido, o mercado imobiliário nacional.

Em primeiro lugar o nosso mercado (excluindo habitação) pouco ou nada se valorizou nos últimos anos, pelo que não se assistiu à formação de uma bolha especulativa, antes pelo contrário. Daqui resulta a convicção de que haverá pouco espaço adicional para o mercado cair. Por este facto não antecipo perdas de capital significativas. Por outro lado, os fundos têm como objectivo a diversificação do risco, pelo que não será expectável que todos os arrendatários em todos os sectores incumpram, ou encerrem a sua actividade, e como tal deverá ser possível aos fundos manterem níveis de rendibilidade minimamente competitivos. Neste contexto, a concorrência mais fraca por parte de produtos supostamente concorrentes (em termos de rendibilidade imediata), deverá ajudar à manutenção e até à captação de novos investidores para os FII’s. Naturalmente que aquilo que aqui afirmo deverá ser visto em termos médios, pois terá havido ao longo dos últimos anos fundos com posturas mais agressivas (logo mais expostos a esta crise) e outros mais conservadores (logo mais defendidos).


GNR: Quais as principais alterações (se alguma) que prevê virem a ocorrer no mercado imobiliário em Portugal nos próximos tempos?

APA: Depende de que alterações estejamos a falar. Em termos de dinâmica, parece-me óbvio que iremos atravessar um período de grande acalmia, para não dizer mesmo de estagnação, mas com graduações diferentes consoante os segmentos em causa. Parece-me assim que a habitação e o retalho, nomeadamente os conceitos de maior dimensão, deverão ser os mais atingidos.


GNR: Que estratégias tem a F&C procurado implementar para fazer face ao momento actual?

APA: A F&C Portugal, enquanto entidade especializada na consultoria de fundos imobiliários, entende que a primeira preocupação em alturas como esta, será a de manter a calma na medida do possível. Mas manter a calma não significa ficar parado à espera que a crise passe. Ter calma significa não entrar em pânico e estar muito atento à realidade e aos mínimos sinais que nos vão chegando, um pouco de todo o lado.

Se bem que a crise esteja aí, o País e o Mundo não pararam. Assim e no que diz respeito ao mercado de arrendamento, continua a assistir-se a alguma procura de espaços, nomeadamente de lojas e escritórios, nem que seja por parte de empresas que procuram espaços mais pequenos e/ou mais baratos, como forma de reduzirem custos. Neste contexto, aliado à falta de liquidez generalizada, será certamente mais proveitoso a concentração de todos os esforços na rentabilização do património imobiliário existente, ao invés da análise de negócios de aquisição.


GNR: Que leitura faz das medidas mais concretas tomadas pelo nosso Governo, nomeadamente da criação dos FIIAH?

APA: Julgo que só haverá uma leitura possível, ou seja, que por detrás da criação dos FIIAH estarão preocupações de outra natureza, que não propriamente a da criação de um produto alternativo de poupança ou de dinamização do mercado de arrendamento habitacional. Dito de outra forma, considero muitíssimo improvável que estes fundos venham a cumprir a sua missão de captação de poupança. Esta convicção baseia-se em dois dados concretos: a leitura da Portaria n.º 1553-A/2008 e a manutenção da lei do arrendamento ou, mais importante do que a lei, a manutenção da complexidade e tempo que uma simples acção de despejo, por incumprimento ou desrespeito de um contrato, pode demorar.


GNR: O que acha que poderia (ou deveria) ser feito para estimular ou dinamizar um pouco mais o mercado imobiliário em Portugal?

APA: Não me ocorre nenhuma poção mágica nesta altura, ou seja, parece-me difícil estimular o mercado enquanto se mantiver esta situação de falta de liquidez. Mas tudo o que puder ser feito em prol do sector ajuda-lo-à certamente, nem que seja à criação de condições para uma retoma mais rápida.

As medidas possíveis são várias e vão desde as que se prendem com a transparência e celeridade nas tramitações burocráticas (a todos os níveis, mas sobretudo as camarárias), até à sempre eficaz “receita” do subsídio ou benefício fiscal. No entanto, existe um segmento de mercado que pelos piores motivos, tem mostrado ultimamente um dinamismo inusitado e que é o mercado de arrendamento habitacional. Digo pelos piores motivos, porque quem coloca as suas casas no mercado age em desespero de causa.

Como se sabe, nada foi feito até hoje no sentido de conferir aos proprietários um mínimo de garantias perante um arrendatário faltoso, pelo que ainda hoje arrendar uma habitação se aproxima muito de uma autêntica lotaria. Não fora este “pequeno” detalhe e poderíamos estar perante uma oportunidade séria de dinamização daquele que é certamente o maior segmento do mercado imobiliário – o habitacional - e que por si só encerra um potencial de negócio imenso.


GNR: Se fosse um investidor ou promotor imobiliário, que decisões/estratégias estaria a tomar neste momento?

APA: Estaria a suspender ou a abrandar o ritmo de execução dos projectos onde isso fosse possível e a concluir aqueles que tivesse que concluir. Isto em termos gerais e dependendo naturalmente das perspectivas de colocação dos produtos no curto-prazo. Por outro lado e como investidor, estaria naturalmente atento a oportunidades que possam surgir, privilegiando as operações de rendimento.


GNR: E enquanto gestor de fundos imobiliários, que conselhos dá (daria) aos detentores das UP’s das carteiras que gere?

APA: A esta pergunta é muito difícil responder com total isenção, pois a minha resposta será naturalmente suspeita. Partirei também do princípio de que estaremos a falar de investidores de médio/longo prazo, conhecedores do mercado imobiliário e do produto onde estão investidos. Estas premissas são muito importantes, pois caso contrário seria muito complicado estar aqui a explicar a enorme diferença que existe entre investir num FII (neste caso aberto) e um DP, por exemplo.

Assim e em termos gerais não resgataria a participação nos fundos, quer pela falta de alternativas, quer pela baixa volatilidade que estes apresentam. Mas à falta de melhores argumentos, julgo que será perfeitamente legítimo olhar para trás e comparar aquele que foi o desempenho dos FII’s em geral (índice APFIPP) e o das restantes classes de activos.

A 3 e a 8 anos, em termos de retorno líquido de impostos, o índice APFIPP (que é igualmente líquido das comissões de gestão e de depositário) bate a generalidade dos principais índices de acções (PSI 20 e Eurostoxx geral) e de obrigações (EFFAS), bem como aquele que seria o retorno de um DP a 3 meses aplicado à taxa Euro Libor a 3 meses, renovável ao longo desse período.


GNR: Acha que a legislação actual dos Fundos de Investimento Imobiliário permite aos gestores de carteiras protegerem-se devidamente contra estes tempos de crise e baixa no mercado? Se não, o que acha que está em falta?

APA: Em termos gerais a legislação actual padece de uma má formação de nascença, decorrente do facto de ter sido decalcada da legislação que rege os fundos mobiliários, mesmo apesar das sucessivas alterações que foi sofrendo ao longo dos anos. Diria que às próprias autoridades lhes falta ainda sensibilidade relativamente à realidade que é a gestão de activos imobiliários. E essa falta de sensibilidade é colmatada muitas vezes, infelizmente, através da proibição de determinadas operações, tudo em prol da defesa dos interesses dos participantes.

Aquilo que acharia desejável seria uma maior flexibilidade na gestão dos activos dos fundos, desde que fosse possível demonstrar as vantagens dessas medidas para os participantes em geral. Refiro-me concretamente à não proibição de transacções de imóveis entre FII’s geridos pela mesma sociedade gestora e à possibilidade de se ultrapassarem os limites impostos nos rácios. Mas como nada de verdadeiramente grave aconteceu entretanto, a leitura que irá ser feita certamente, é de que está tudo bem, pelo que não será necessário alterar o que quer que seja.

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António Pena do Amaral é Administrador da F&C Portugal e responsável pelo pelouro imobiliário. Está na empresa há mais de 7 anos.

A F&C Portugal, Gestão de Patrimónios, SA é uma subsidiária detida a 100% pela britânica F&C Asset Management, plc. Dedica-se a 100% à gestão de activos e para além do Reino Unido (Londres e Edimburgo), tem escritórios na Holanda, França, Portugal, Irlanda, Alemanha, EUA, China (Hong-Kong), Escandinávia e Suíça. Para além dos mercados desses países, está ainda presente na Áustria, Nova Zelândia e Espanha.

A 31 de Dezembro geria um total de €102 mil milhões (£98,6 mil milhões), dos quais €8,1 mil milhões em imobiliário (directo e indirecto).

Para os fundos imobiliários, a F&C Portugal actua como consultora de uma sociedade gestora de fundos imobiliários colocados maioritariamente em clientes institucionais e da rede de private banking. Nesse contexto estão incluídos dois fundos, sendo um aberto e outro fechado.

O primeiro fundo, aberto, é um fundo “core” que investe em quase todos os segmentos de mercado, com excepção da habitação. A 31 de Dezembro detinha 110 imóveis ou partes de imóveis, sendo 48.5% destinados a serviços, 27% a comércio, 15,2% a armazéns e indústria e o restante são projectos e terrenos. Em termos geográficos, 57% do seu património concentra-se na região da Grande Lisboa, 13,8% no Grande Porto e o remanescente (29,3%) noutras regiões.

O segundo fundo é um fundo fechado com vocação para o investimento em projectos turísticos e reabilitação urbana. No que respeita aos primeiros (projectos turísticos), está em fase muito adiantada um projecto no Algarve, totalizando 36.000 m² de construção repartidos por 2 hotéis e 1 aldeamento turístico. Relativamente aos segundos (reabilitação urbana) o fundo está ainda em fase de aquisição de um quarteirão na cidade do Porto, onde se prevê a construção de 22.000m² repartidos por comércio, habitação, podendo ainda vir a albergar serviços e/ou hotel e um parque subterrâneo para 760 lugares.

A 31 de Dezembro de 2008 o fundo aberto detinha cerca de €356 milhões em património imobiliário e um património líquido de €310 milhões. O fundo fechado tinha cerca de €57 milhões de capital, dos quais cerca de €37 milhões em imobiliário.

O fundo aberto tem cerca de 2.500 participantes, sendo na sua maioria (em termos de montantes) clientes institucionais (Seguradoras, Fundos de Pensões e outros). Existe também um número significativo de clientes do segmento alto.

quinta-feira, 26 de Fevereiro de 2009

O Plano Obama - II

Steven Wechsler, NAREI President fala sobre o Plano Obama (TALF) para revitalizar o sector de Commercial Real Estate, através de refinanciamentos, novos empréstimos e a implementação de um programa público-privado de compra de activos a Instituições Financeiras.

video

terça-feira, 24 de Fevereiro de 2009

The S&P Case Shiller Index

O S&P Case Shiller Index é o principal indicador norte-americano sobre o valor do mercado da habitação. Durante o ano de 2008, este índice observou um decréscimo de 18,5%, tendo caído 18,2% no último trimestre, quando comparando com período homólogo de 2007.

Trata-se do maior declínio do índice desde o início da série que leva já 21 anos. O mercado está neste momento a atingir valores de 2003. Phoenix, (-34.0%), Las Vegas (-33.0%), San Francisco (-31.2%) foram as cidades que observaram a maior descida em 2008.

No entanto, quando comparando com o S&P 500, o Case Shiller está ainda muito distante das quedas que têm vindo a assolar o mercado bolsista. O S&P 500 acumula já uma queda de quase 50% no último ano, estando neste momento a transaccionar a valores de 1997.

A leitura que fazemos destas disparidades é a seguinte:

- Por natureza, os mercados bolsistas são mais voláteis e reagem muito mais ao preço. Em alturas de bear-market, tendem naturalmente a registar descidas mais rápidas e mais fortes;

- Por seu turno, o imóvel é um activo financeiro mais rígido e demora muito mais tempo a reagir a influências externas macroeconómicas;

- Adicionalmente, parece-nos que em alturas de crise e necessidade de liquidez, o investidor vende primeiro os títulos mobiliários por serem muito mais líquidos e o seu valor imediatamente perceptível, caso que não acontece com um activo imobiliário;

- Um imóvel é muito menos líquido e o seu valor só é conhecido com a transacção. Se uma acção podemos ver, a todo o momento, qual o potencial valor de realização, isso já não acontece com um imóvel;

- Finalmente, aquilo que nos parece é que a continuação deste cenário de enorme incerteza nos mercados poderá provocar ainda quedas superiores no S&P Case Shiller e em outros índices imobiliários, a partir do momento em que os investidores tenham forçosamente de tornar líquidos os seus investimentos imobilíários, provocando assim forte pressão sobre o preço.

Bons negócios (imobiliários)!

sábado, 21 de Fevereiro de 2009

O Imobiliário Pós-Recessão - I

Lia há uns dias um paper muito interessante sobre as últimas crises financeiras conhecidas e os efeitos em alguns sectores de actividade.

Deixo aqui um gráfico explícito sobre o efeito no mercado imobiliário... quantos anos mais de declínio? Até onde iremos? Vejam o caso do Japão, com deflação...


Outro tema interessante e que está também a influenciar os valores de mercado dos imóveis são as yields. Temos vindo a observar uma subida nas corporate yields, principalmente no último trimestre de 2008, contra uma descida das treasury bonds. E o imobiliário? Mais risco, yields mais elevadas, logo menor valor de mercado:

Falaremos mais sobre os efeitos no imobiliário desta recessão e o que nos pode esperar daqui para a frente. Convidamos todos a participar.

Bons negócios (imobiliários)!

quinta-feira, 19 de Fevereiro de 2009

O Plano Obama


Principais Highlights:

  • $ 75 Bll para prevenir que cerca de 9 milhões de americanos sejam despejados das suas casas;
  • Injecção de $ 400 Bll na Fannie & Freddie para incentivar refinanciamentos;
  • Ajudar as famílias, concedendo um "incentivo" à prestação bancária, para que esta não exceda 31% do rendimento disponível;
  • Compra de hipotecas com negative equity, ou seja, cujo valor esteja já acima do valor de mercado do imóvel, num total de $ 200 Bll.

O que isto significa:

  • Comprando hipotecas cujo valor excede o valor de mercado dos imóveis, ficando com o risco do investimento. Incorpora também o prejuízo imediato. Comete-se o erro do pricing: está-se a cotar mal o produto. Esta medida seria fantástica se o preço fosse o correcto. Aquilo que se deveria ter feito seria montar um Mortgage REIT alike com hipotecas cotadas a preço de mercado e depois dispersar o capital. Comprar hipotecas acima do preço de mercado não resolve nada e parece-me que não cumprirá o objectivo de estancar a descida dos preços;
  • A concessão de um benefício a algumas famílias para que consigam pagar o empréstimo já me parece mais interessante, resta saber como será feita na prática. Se se injecta tudo nos home lenders para que estes possam renegociar empréstimos, temo que alguma coisa se perca pelo caminho. Se o benefício for directo ao indivíduo e à sua prestação, talvez se faça sentir um maior impacto;
  • O incentivo a refinanciamentos pode significar o aumento da dívida e de negative equity a prazo, o que pode ser complicado...

Contamos adicionar mais informação nos próximos dias e novos comentários sobre este assunto.

Bons negócios (imobiliários)!

sábado, 14 de Fevereiro de 2009

PENSAR FORA DA CAIXA - II


Novos Serviços de Consultoria Imobiliária

Numa outra ocasião, tive oportunidade de referir que seria necessário repensar o serviço de Consultoria Imobiliária para fazer face aos desafios que atravessamos.

Enquanto antes todos estávamos habituados a estudar os imóveis e as localizações – e tipicamente se elaboravam Avaliações, Estudos de Mercado, Estudos de Research, etc. – agora há que prestar muita atenção à forma como os imóveis são (ou foram) financiados.

A viabilidade de um investimento imobiliário passa, é certo, pela localização, pelo produto, pela forma como é comercializado, etc. Mas passa também pela forma como é financiado. Na realidade, observamos isso todos os dias: os maiores Promotores e Investidores Imobiliários concentram-se agora na renegociação dos seus empréstimos, na colocação no mercado de obrigações convertíveis, em aumentos de capital e em tantas outras formas de se financiarem. Mais do que pensarem e reposicionarem os seus projectos, estão neste momento simplesmente a adiá-los e a concentrarem-se em operações de refinanciamento da sua actividade.

A Consultoria Imobiliária deve evoluir. Um departamento típico de estudos tem de evoluir e as empresas serem capazes de os reestruturar. O típico serviço de avaliação imobiliária deve evoluir para uma avaliação financeira de uma empresa ou portfolio imobiliário, onde são devidamente pesados e analisados o impacto do equity e debt na originação de cash-flows e no risco do investimento.

Os serviços potencialmente a oferecer poderão assentar em:
- Non-performing loan reviews – analisar empréstimos em curso, renegociá-los e avaliá-los à luz da capacidade de geração de cash-flows. Necessário analisar componentes tais como rácios de cobertura de dívida, entre outros;
- Asset and collateral analysis;
- Loan valuation and NPV analysis (em vez de asset valuation);
- Recapitalizing projects by contributing new equity – emissão de obrigações convertíveis, aumentos de capital, angariação de parceiros estratégicos de capital;
- Entre outros.

Só com fortes financial capabilities é que será possível ir ao encontro do mercado. Hoje, não basta ter um expertise imobiliário, é necessário conjugar esse know-how com uma sólida base financeira.

Sendo o financiamento hoje uma questão tão premente, porquê continuar a estruturar um serviço de Consultoria em áreas transaccionais e não-transaccionais? Bem sei que a lei portuguesa a isso o obriga mas funcional e operacionalmente, não deveríamos pensar em função da necessidade do cliente? E não passa essa necessidade, hoje em dia, pela reestruturação das suas fontes de financiamento?

Conto, numa próxima oportunidade desenvolver um pouco mais este assunto e falar um pouco mais sobre essas fontes de financiamento: quais são, como podem ser estruturadas e como devem ser tratadas.

Até lá, bons negócios (imobiliários)!

sábado, 7 de Fevereiro de 2009

PENSAR FORA DA CAIXA - I

Repensar a Consultoria Imobiliária


Os mercados imobiliários sofreram profundas alterações nos últimos meses. Todos estávamos habituados a alavancar – o mais possível – um investimento imobiliário. A alavancagem era regra, era saudável e potenciava o retorno do equity investido. A teoria financeira diz-nos isso – no limite, o meu Return on Equity é infinito se conseguir uma alavancagem de 100%. A prática confirmou-nos isso também mas a dura realidade de hoje mostra-nos que sem debt, dificilmente haverá investimento e promoção imobiliária.

Um sector que muito beneficiou, lucrou e se desenvolveu à custa deste paradigma foi o sector da Consultoria Imobiliária – não confundir com mediação imobiliária, por favor. Asset Sale & Leaseback, parcerias financeiras, montagem de fundos de investimento fechados e outros serviços foram prestados e montados por este sector para os seus clientes, sempre no pressuposto que a dívida existia e estava quase garantida.

Hoje não é assim. E por isso temos de ser capazes de inovar. Inovar no serviço prestado e na forma como se podem montar investimentos imobiliários.

Se antes transaccionar um imóvel ou um projecto imobiliário era simples porque havia possibilidade de recurso à dívida, hoje isso já não é mais verdade, pelo menos não o vai ser no curto prazo. Nesse caso o que fazer?

Durante os últimos meses, o mercado tem observado um acréscimo nas actividades não-transaccionais, por contraponto do decréscimo nas actividades transaccionais. Isto é algo que provavelmente se manterá nos próximos tempos mas, mais tarde ou mais cedo, teremos de voltar a olhar para o mercado de transacções e pensar como as executar sem ou com menos dívida. Haverá com certeza proprietários interessados e necessitados em vender e o mercado de equity continua e continuará a existir.

Mas manter este estado de coisas levará a que a componente de serviços não transaccional tenha também de evoluir: sermos capazes de compreender bem as envolventes macro e micro-económicas e as implicações que têm no valor de um imóvel é crucial.

Então o que e como fazer?

A Consultoria Imobiliária deve evoluir. Deve adaptar-se aos novos tempos e ser capaz de prestar um serviço de excelência e de qualidade. Deverá rapidamente adaptar-se e tornar-se num serviço de corporate finance especializado no sector imobiliário. O mercado deverá incorporar fortes capabilities financeiras e um elevado expertise em imobiliário. A junção destas duas vertentes será um primeiro e forte passo para este sector se adaptar às constantes mudanças no mercado imobiliário.

Estas alterações terão, forçosamente, consequências nas áreas de avaliação, research, estudos, análise de investimentos e investment services. Numa próxima oportunidade procurarei explicar como cada um destes serviços se deve adaptar à nova realidade do mercado.

Bons negócios (imobiliários)!