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terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

Fim-de-semana prolongado ... !?


Por Ricardo Pereira
inPROP Capital Fund






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No início do ano é comum recebermos imensas newsletters/estudos com previsões para a performance das diversas classes de activos em diversas áreas geográficas. Neste ínicio de ano, muitos destes estudos têm tido um tom pouco positivo para a maioria dos investimentos principalmente quando realizados nos países periféricos da zona Euro, os mesmos que foram apelidados por PIIGS (Portugal, Irlanda, Itália, Grécia e Espanha).

Estes estudos mais pessimistas começam por extremar os seus cenários macroeconómicos de trabalho e normalmente terminam com a saída de alguns dos PIIGS da zona Euro, pois nem as populações terão condições para pagar a factura da austeridade nem os financiadores estão dispostos a correr o risco de incumprimento. No entanto, são poucos os estudos que abordam a questão de como a saída da zona Euro se processará.

A consequência mais óbvia da saída de um dos países da zona Euro será a oscilação cambial da moeda então criada e do Euro face a todas as outras moedas mundiais. (não é de excluir a situação em que o banco central decide manter a nova moeda indexada a uma moeda externa e neste caso a oscilação cambial será menor, embora permaneça sujeita ás reservas cambiais existentes no banco central). Se a zona Euro ficar um grupo mais homógeneo e forte então o Euro sairá valorizado e a nova moeda desvalorizará consideravelmente, caso contrário verificar-se-á o inverso. Isto é óbvio para a maioria dos investidores, mas a questão que se coloca é: como se processará a migração para a nova moeda sem que se gere o pânico nas populações, nomeadamente, na classe média, que é quem mais tem a perder (os mais ricos ficarão menos ricos mas continuarão ricos e os mais pobres continuarão pobres)?

Este processo terá que ser desenvolvido no maior do secretismo e as populações só serão informadas no dia seguinte quando já não estiverem no Euro. Este anúncio será provavelmente feito num Sábado e o governo decretará feriados para Segunda e Terça feira, para desta forma evitar/controlar as corridas aos bancos. Os depósitos serão, contudo, automaticamente convertidos na nova moeda, a uma taxa de câmbio que, pelo menos nos primeiros dias, será fixa (isto para facilitar transacções comerciais). Durante esse fim-de-semana prolongado, os bancos centrais permanecerão abertos para procederem à conversão da moeda em circulação, para quem estiver interessado nessa conversão, e porque as impressoras estarão a trabalhar a todo o gás. Em simultâneo, controlos físicos serão estabelecidos nas fronteiras para controlar saídas de dinheiro. (a este propósito, convém referir que a diminuição da base de depósitos verificada ao longo do último ano é já o espelho desta fuga de capitais.)

Da mesma forma que os depósitos denominados em Euro serão convertidos na nova moeda, nada garante aos depositantes de moeda estrangeira em bancos nacionais, que estes não sejam também convertidos. Contudo, o pior cenário para os depositantes será a falência dos bancos, o que me parece pouco provável porque, por esta altura, o banco central estará a imprimir dinheiro a toda a velocidade, o que permitirá a recapitalização dos mesmos, embora à custa do aumento da inflação e como tal à custa dos credores externos e internos (depositantes são também credores dos bancos).

Os credores externos serão provavelmente os menos beneficiados pois os contratos de mútuo também serão redenominados na nova moeda o que os deixará, na melhor das hipóteses, expostos ao risco cambial da nova moeda e, na pior das hipóteses, ao risco de incumprimento.

(Embora muitos defendam que a desvalorização cambial terá efeitos positivos na economia pois permitirá a melhoria da balança comercial com o exterior, isto só acontecerá se o Resto do Mundo não impuser taxas alfandegárias.)

Os feriados também serão utéis para os bancos de retalho pois permitir-lhes-ão: (i) proceder a alterações nos seus sistemas de IT e, nomeadamente, na conversão dos depósitos e empréstimos na nova moeda; (ii) e porque desta forma não terão de efectuar transferências internacionais, o que deterioraria ainda mais os seus rácios de liquidez. O controlo das transferências internacionais permancerá activo enquanto houver risco real de fuga de capitais.

Os levantamentos também serão restringidos, pois a moeda nas caixas ATM ainda será o euro. Se a conversão contabilística é imediata, a conversão física demorará alguns meses (lembremo-nos de quanto tempo demorou a implementação do Euro).

As empresas nacionais enfrentarão restricções financeiras enormes e muitas empresas falirão o que arrastará o país para a recessão económica, pelo menos no curto-prazo.

Quanto ao imobiliário, muito pode ser dito mas penso que basta referir que é uma reserva de riqueza que é difícil de “transferir” para outros destinos e que, portanto, num contexto de estrangulamento das finanças públicas, pode ser sempre tributado até à exaustão (e mesmo quando a entidade detentora do título de propriedade não seja residente, o Estado pode sempre decidir tributar o imóvel e, na ausência de pagamento, ficar com ele). Por outro lado, num contexto em que o desemprego e a inflação (e consequentemente as taxas de juro) aumentam mas em que os bancos estão em melhores condições para financiar a economia (pois têm o banco central por trás a imprimir moeda), também é difícil prever o que acontecerá aos preços do imobiliário: há quem argumente que aumentarão para acompanhar a inflação e outros que defendem que diminuirão, em consequência do aumento do desemprego e do aumento das yields (e que o Estado terá de intervir para evitar a insolvência e despejo em massa da população por incumprimento dos contratos de mútuo, a exemplo do que aconteceu em 2008/2009 nos EUA). Mais uma vez, os investidores externos serão os mais lesados pois a desvalorização cambial que, mais tarde ou mais cedo, será uma realidade (principalmente, se a inflação aumentar) significa a depreciação do valor do imobiliário na moeda estrangeira.

Bom, face a toda esta incerteza ... resta a boa notícia de se ganhar um fim-de-semana prolongado.

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

Are we PIGS?

As notícias mais recentes nos mercados financeiros levam-me a escrever hoje algumas linhas sobre o estado da nossa dívida.

PIGS: conjunto de iniciais que significam Portugal, Italy, Greece e Spain. PIGS. Nos mercados financeiros, somos conhecidos por sermos um PIG (porco). Há quem seja BRIC (tijolo), nós somos PIG.

Não me aflije ser considerado um "porco" - até gosto da carne, confesso! O que me aflije, com muita sinceridade, é viver num País governado e gerido por pessoas incapazes de nos tirar da lama onde, nós "porcos", vivemos.

Leiam este conjunto de notícias que têm saído na imprensa nacional e internacional:

Portugal, Spain Lead Worldwide Decline in Stocks; Dollar Gains

Só a Venezuela cai mais do que a bolsa de Lisboa em 2010

Receios dos investidores catapultam risco da dívida de Portugal

Portugal, Greece Lead Surge in Sovereign Debt Risk on Deficits

Nos últimos dias, a dívida portuguesa tem visto subir a sua yield nos mercado internacionais. O custo de segurar essa dívida, disparou. O PSI-20 acumula, neste momento, 11% de queda em 2010.

Parece-me ser tempo destas variáveis financeiras entrarem, definitivamente, no processo de tomada de decisões em Portugal. Devemos todos ter clara noção que o Estado não é uma entidade extraterrestre, intocável e infalível.

Deixo-vos este post porque me parece que estamos a correr sérios riscos financeiros. Estas mexidas nos mercados financeiros têm, a curto prazo, reflexo na vida das empresas e dos particulares. Quanto mais cara for a dívida emitida pelo Estado, mais cara será a dívida contraída pelos bancos e esse custo passará para a economia, reflectindo-se numa subida dos custos dos empréstimos a empresas e particulares. Esses não têm e não terão condições para pagar dinheiro tão caro.Recentemente escrevia para a Revista Imobiliária que estes movimentos teriam claras consequências no investimento imobiliário em Portugal, podendo reflectir-se no início de um novo ciclo de subidas nas yields.

Uma solução, que poderia passar por um Orçamento de Estado exemplar, perdeu-se. Ficamos contentes por baixar o déficit em 1 ponto percentual. Achamos ser um cataclismo baixar a despesa corrente do Estado, e aceitamos que os impostos indirectos possam ter de subir.

Adicionalmente, sentimo-nos confortáveis em pagar elevados vencimentos a gestores públicos, cujas empresas por si geridas dão prejuízo. E temos medo em anunciar um corte transversal nas despesas do Estado, inclusive, nos vencimentos dos nossos políticos. Acham uma medida demagógica? A mim parece-me que, sobretudo, daria um (bom) exemplo.

Eu sempre trabalhei no sector privado e sempre me habituei a trabalhar em função da facturação, da rendibilidade e no cumprimento de objectivos estratégicos, objectivos esses comuns, para um bem comum, não pessoais. Parece-me ser tempo do Estado começar a fazer o mesmo.

Para mim, cataclismo é ter de subir outra vez os impostos ou ver as empresas sem conseguir receber nem obter financiamento para a sua actividade.

Para mim, cataclismo é ver que o maior devedor no País é o próprio Estado, que assim estrangula o fundo de maneio de grande parte do nosso tecido empresarial.

Espero não estarmos à beira de uma ruptura financeira em Portugal. Isso, sim, seria um verdadeiro cataclismo!

Bons negócios (imobiliários)!