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segunda-feira, 30 de abril de 2012

Entrega da casa paga dívida?

Por estes últimos dias, temos sido bombardeados com a notícia da decisão de um Tribunal, em Portalegre, que deliberou que a entrega da casa ao Banco é suficiente para pagar a dívida. Vamos à história, resumida, do que eu entendi:

Um casal comprou uma casa por € 117.500,00, tendo para tal contraído um crédito com mútuo de hipoteca pelo mesmo valor. A esse valor, acresceu ainda o montante de € 3.550,00, sobre o qual foi constituída hipoteca sobre o bem imóvel. Passados uns tempos, o casal divorciou-se e pretendeu resolver a questão da dívida, dívida essa que totalizava já € 129.521,52. A entidade credora, não havendo mais bens no património do casal, deliberou a venda do imóvel, tendo estabelecido como método de venda a recepção de propostas em carta fechada, com preço mínimo de 70% do valor inicial da avaliação do imóvel que foi de € 117.500,00, igual ao valor da escritura. A única proposta recebida foi de € 82.250,00 e da parte da própria entidade credora. Esta exigiu, então, o valor adicional em dívida de € 47.271,52 (na realidade foi um pouco menos dado que o valor que a entidade credora alegou como devedor era ligeiramente inferior). O Tribunal deliberou que a dívida ficaria saldada com a entrega da casa.

Esta é a história que nos contam que não é inteiramente verdade. É o problema de hoje em dia, de se querer vender ilusões às pessoas com grandes títulos nos jornais. Mas é preciso que as pessoas não se deixem enganar. Vamos por partes:

- A dívida não ficou saldada com a entrega da casa. Apesar dos jornais e das televisões o dizerem repetidamente, isto não é verdade e consta da decisão do Tribunal;

- Aquilo que o Tribunal deliberou foi que a entidade credora como que "agiu em causa própria" ao adquirir a casa pelo valor mínimo do procedimento de venda. Tendo considerado este acto como injusto ou mesmo abusivo, o Tribunal deliberou que o montante de € 117.500,00, correspondente à avaliação do imóvel, estaria saldado;

- Não está saldada a dívida remanascente de aproximadamente € 12.500,00. Este valor, os anteriores mutuários terão de pagar ao Banco, disso não haja dúvida. Aquilo que o Tribunal julgou como improcedente foi a pretensão do Banco em ver pagos mais de € 47 mil, mas há um remanescente de € 12.500 que têm de ser liquidados.

Pessoalmente, concordo esta decisão específica do Tribunal, discordo em absoluto com todo o procedimento. Por princípio, acho que não deve ser possível entregar uma casa ao Banco e ver a dívida liquidada. Neste caso específico, o Tribunal também não concordou. Julgo que seria perigoso e injusto. Quem correu o risco de investimento foi o mutuário, não o Banco. Logo, quem deve correr o risco de valorização ou desvalorização do activo, deve ser o mutuário. Se entretanto a casa se desvalorizou mais do que o valor entretanto amortizado de dívida, quem deve perder é o mutuário. Há uma clara perda de equity mas somente do equity, não da dívida.

O que não posso concordar neste caso específico é com o procedimento da venda, e por isso acho que o Tribunal decidiu bem. A entidade credora é parte interessada no processo, logo não deveria sequer poder fazer qualquer oferta sobre o imóvel. Vejam bem: o Banco, neste caso, reclama a dívida, estabelece o procedimento de venda, e faz a oferta mínima. "Controlando" o processo, é natural que não apareçam mais interessados, sendo que a probabilidade de comprar a casa pelo preço mínimo é enorme. Arriscaria a dizer que há aqui um enriquecimento ilícito do Banco!

Afinal, o que está errado no processo? Fundamentalmente, o valor do imóvel. O montante de € 117.500,00, pelo que pude compreender, é o valor da escritura e da avaliação à data da escritura. Não é o valor actual e também não é um preço de mercado. Julgo que o mais correcto teria sido as partes - Banco e mutuário - pedirem avaliações externas a peritos avaliadores independentes para se determinar o potencial valor de mercado do imóvel e o valor de liquidação forçada. Em alternativa, que fosse o Tribunal a pedi-lo. Assim, teríamos o valor mínimo de licitação ou de oferta (correspondente ao valor de liquidação forçada) e o potencial valor de mercado da casa.

Adicionalmente, o processo de venda. Seria mais justo se a casa fosse colocada num leilão onde há mais procura e maior probabilidade de aparecem mais ofertas, para além da mínima. Aí, sim, se poderá ver qual o preço que o mercado está disposto a pagar.

No final, caso não hajam ofertas para o imóvel, deve o Banco ficar com ele pelo valor da avaliação actual, não histórica. Assim, sim, seria mais justo. No fundo, o Tribunal acabou por deliberar isso mesmo mas "obrigou" o Banco a encaixar a desvalorização do activo dado que a avaliação não é actual e com isso não concordo.

Abriu-se um precedente? Julgo que sim. E perigoso porque pode permitir a muitos mutuários verem-se livres de dívidas actualmente superiores ao valor de mercado do imóvel. A culpa disso é dos Bancos? É claro que não!

Bons negócios (imobiliários)!

Nota: Importa apenas focar um aspecto final. A casa, quando comprada e financiada, foi com um LTV superior a 100%. Imprudência do Banco, total irresponsabilidade dos mutuários. Andamos anos a financiar pessoas recolhendo imóveis como garantias. Esquecemos que as pessoas podem deixar de pagar e os imóveis deixar de valer. Todos somos culpados, não apenas uns. E não apenas os Bancos.

terça-feira, 24 de abril de 2012

Nação Valente


Por Rui Bexiga Vale
Arquitecto - Owner of rbv.arq








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Não cessa de me surpreender a capacidade de adaptação dos Portugueses às condições adversas provocadas pela conjuntura (ou seja, a crise), sobretudo naquela área que a nós nos interessa particularmente, o imobiliário.

Tenho tido a oportunidade de lidar com pessoas e projectos que desafiam a moleza reinante (ou, como já ouvi, o “estado de bovinidade”) e que têm boas ideias, fazem as coisas bem feitas e obtêm bons resultados.

Alguns exemplos disto mesmo:

1. Dada a especificidade do "normal" mercado da habitação em Portugal, em que o recurso ao crédito é (era) essencial, tenho efectuado projectos de alteração a licenciamentos para habitação (aprovados nas autarquias!) para outros usos, normalmente para hotelaria/turismo e alojamento local. Os promotores têm tido a coragem de reiniciar os processos de licenciamento para transformar um activo invendável (presentemente...) num outro com maior capacidade de penetração no mercado;

2. Aposta em nichos de mercado menos evidentes, como as residências geriátricas ou universitárias, dois segmentos de mercado que apresentam alguma resiliência face à crise, mas para os quais a criteriosa selecção da localização é imprescindível para poder augurar o seu sucesso;

3. Novos tipos de habitação, com tipologias mais pequenas e/ou serviços associados, mudando o paradigma até aqui vigente do mercado encharcado de T2 e T3;

4. Promotores que acreditam e investem em edifícios com programas inovadores e arquitectura diferenciadora, para gerar valor acrescentado aos seus investidores e utilizadores;

4. Utilização do "modus operandi" normalmente empregue em edifícios de comércio/serviços, à reabilitação da habitação para arrendamento. Como? A simplicidade da operação é brilhante – pega-se num edifício para reabilitar, efectuam-se as obras e depois celebram-se os contratos de arrendamento. Até aqui nada de especial, e é verdade. O toque de Midas consiste em pegar neste activo e ir apresentá-lo a fundos e/ou investidores estrangeiros que, atraídos por um yield de 6-7%, compram o activo e rentabilizam a operação;

Se a isto adicionarmos o facto de que a forma de transaccionar o imobiliário tem vindo a mudar, com a introdução de modalidades como o arrendamento com opção de compra, o que conjugado com a descida do valor dos activos e o consequente aumento da sua atractibilidade para investidores com liquidez (nacionais ou estrangeiros), creio sinceramente que poderemos antever uma recuperação sustentada com qualidade e estabilidade, a médio prazo.

Isto se entretanto a parte que cabe ao Governo da República for levada a cabo com discernimento, e se o êxodo de técnicos qualificados estancar, de alguma forma. Mas isso será objecto de comentário posterior. Até lá, bons negócios imobiliários!

quinta-feira, 19 de abril de 2012

Euro ou não euro, eis a questão!

Deixo-vos cópia integral do artigo que escrevi em Janeiro, agora publicado nesta última edição da Revista Imobiliária.


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«Em Janeiro do ano passado, (…) escrevia que Portugal teria obrigatoriamente de pedir assistência financeira e por tal as yields das obrigações do tesouro subiriam, algo que poderia prejudicar o investimento imobiliário em Portugal. Dito e feito!»

A Direcção desta publicação pediu-me um artigo sobre perspectivas para o mercado imobiliário em 2012. Reconheço, agora, que provavelmente terá sido um dos maiores desafios que se me puseram nos últimos tempos!

Sempre que um novo ano começa, tento recuperar aquilo que escrevi há um ano atrás para ver se aquilo que pensei e perspectivei se concretizou de alguma forma.

Os últimos 3 anos de imobiliário

No início de 2009, quando inaugurei o blog Out of the Box, escrevia que era necessário começar a inovar. Podíamos esperar cada vez menos transacções mas nem por isso o mercado iria parar; a componente não-transaccional do imobiliário iria ganhar relevo com a crescente importância que o estudo da dívida associada ao imobiliário começava a ganhar. – In “Pensar Fora da Caixa – I”, de 07 de Fevereiro de 2009.

Em Março do mesmo ano, aquando da publicação da Real Estate & Finance Newsletter nº7, no meu artigo “O Ano de Todos os Perigos”, olhava 2009 com grande apreensão, focando o aumento potencial do crédito mal-parado, aumento das vacancy rates, descida das rendas, aumento das yields e focagem da banca nos seus rácios de capital.

Em Janeiro de 2010, também para esta revista, no artigo “O imobiliário do ponto de vista financeiro”, olhava para 2 variáveis que me preocupavam: o desemprego e a dívida. No fundo, temia que se verificasse uma descida do consumo e um aumento das dívidas comerciais e particulares, com repercussão óbvia no aumento do mal-parado.

Em Janeiro do ano passado, no meu artigo “O que podemos esperar de 2011” escrevia que Portugal teria obrigatoriamente de pedir assistência financeira e por tal as yields das obrigações do tesouro subiriam, algo que poderia prejudicar o investimento imobiliário em Portugal. Dito e feito! Antecipei uma descida nos preços e rendas residenciais, menos transacções no mercado de escritórios com maior concentração no tipo e zona, e por fim uma descida do consumo privado a prejudicar fortemente a actividade de retail e os novos projectos nesta área.

Analiso os movimentos dos mercados nacional e internacional, com maior profundidade, desde 2007 e tenho procurado compreendê-los e antecipá-los. Olhando para trás, nestes últimos 3 anos, é para mim bem claro a evolução que o mercado tomou, onde chegamos e porque aqui chegamos.

«Julgo ser possível, apesar de tudo, que a actividade de investimento imobiliário possa finalmente ganhar uma nova dinâmica com os grandes patrimónios a terem de ser colocados no mercado com desconto.»

E agora, e 2012?!

Pela primeira vez escrevo claramente: o que mais me preocupa para este ano é a possibilidade de Portugal sair da moeda única; em alternativa, permanecer numa moeda única mais fraca, com menos países numa União Europeia partida em duas.

Se até agora a componente financeira em muito influenciava os mercados imobiliários, hoje é claramente a componente política e geopolítica que os domina.

Por esta principal razão, torna-se extremamente difícil projectar o que nos pode proporcionar este ano! Se perdermos a moeda actual, tal como a conhecemos, os efeitos sobre o mercado imobiliário nacional podem ser tremendos.

Caso tudo permaneça igual (ou melhor, esperamos!) no panorama europeu, julgo que teremos um pouco mais do mesmo:

- Manutenção da tendência de descida dos preços na habitação com menor volume de transacções;
- Acentuar do crédito mal-parado, nos particulares e nas empresas;
- Manutenção em baixa da actividade no sector de escritórios, com rendas em baixa, vacancy rates e yields em alta;
- Acentuar da actividade de distressed sales, com os bancos e o próprio Estado a insistir na venda de imóveis provenientes de crédito mal-parado e recuperação de crédito.

Fonte: INE

No entanto, foco 4 tópicos que considero importantes e que deverão ser seguidos durante 2012.

Distressed Sales

Julgo ser possível, apesar de tudo, que a actividade de investimento imobiliário possa finalmente ganhar uma nova dinâmica com os grandes patrimónios a terem de ser colocados no mercado com desconto.

Até ao momento, os seus proprietários procuraram com a Banca protelar uma situação que, mais tarde ou mais cedo, terá de se concretizar: o reconhecimento de perdas (sobre este assunto, ler “Saber Perder”, deste autor, em 27 de Janeiro de 2011). Estou fundamentalmente a falar de proprietários de cariz mais institucional – Fundos de Investimento, Estado e proprietários de maior dimensão – que terão de aceitar perdas. Assim, muitos imóveis de maior dimensão terão de ser vendidos a desconto para se tornarem apelativos a uma procura que existe, está expectante mas só comprará ao preço certo.

No que respeita à Banca, também ela continuará a optar pela venda deste tipo de activos, por forma a continuar o seu processo de desalavancagem e melhorar os seus rácios de capital.

Fonte: Banco de Portugal

Arrendamento Residencial

O ano de 2011 terminou com a Proposta de Lei nº38/XII, a famosa revisão da “Lei das Rendas”.

Para muitos, o arrendamento tornar-se-á regra face à aquisição de habitação. Durante os últimos anos, a Banca tornou possível a muitos milhares de Portugueses a aquisição de habitação própria e permanente com recurso a crédito fácil e barato. Hoje em dia, tal não é possível. Com menos dinheiro para emprestar e a custos proibitivos, o crédito à habitação caiu bastante em 2011 e muitos portugueses têm apenas como alternativa o arrendamento.

Fonte: Banco de Portugal

No entanto, a revisão do quadro legal do arrendamento urbano em Portugal torna-se fulcral para que o arrendamento habitacional seja uma verdadeira realidade. Obrigados pela Troika – esta é que é a verdade – tiveram os nossos governantes de pensar no assunto e daí nasce a Proposta de Lei nº38/XII.

Numa outra oportunidade mais indicada para o efeito, falarei com pormenor sobre esta proposta. No entanto, adianto desde já o que dela espero: pouco. Parece-me que o alcance prático das medidas propostas será reduzido e que os efeitos práticos da lei só se sentirão a médio/longo prazo, entre 5 a 7 anos.

Por outro lado, julgo que uma verdadeira reforma do mercado de arrendamento só será atingida quando se alterar 3 vértices fundamentais: o do mercado propriamente dito (que foi alvo nesta proposta), o fiscal e o financeiro (que ficaram de parte). Sem se atacar de uma vez estas três componentes, dificilmente teremos uma reforma profunda.

Mas aquilo que Portugal precisa é de reformas para hoje e não para daqui a 7 anos. Esta é, para mim, a principal desilusão desta proposta: não resolve de forma rápida e expedita o problema das chamadas rendas antigas (ou rendas congeladas). E por isso, fico muito reticente sobre qualquer evolução no arrendamento em Portugal em 2012 e também em 2013.

Buy-to-Let

O investimento em imobiliário, mais concretamente em habitação para arrendamento – o denominado “buy-to-let” – sempre foi uma das principais formas de aforro dos Portugueses. No entanto, o congelamento das rendas residenciais afugentou o investidor e tornou esta forma de poupança menos comum em Portugal.

No entanto, com a crescente dificuldade na aquisição e, espero eu, com os efeitos da revisão da lei das rendas sobre os novos contratos (ao contrário, como já disse, nas rendas antigas), a confiança no investimento neste tipo de imóveis pode aumentar.

É já notório o aumento da procura de pequenos investidores de casas para arrendar sendo expectável que esse movimento ganhe maior importância ao longo dos próximos 2 a 3 anos.

No entanto, espero que as yields implícitas neste sector – o valor de 5% tem sido historicamente aceite como bom – subam, reflectindo assim a descida mais acentuada dos preços face ao valor das rendas, espelhando naturalmente o aumento do risco intrínseco do nosso mercado.

Reabilitação Urbana

Pessoalmente, e ao contrário do que muitos esperam, não acredito que a reabilitação urbana se torne a esperança do mercado imobiliário em Portugal. Bem gostaria que assim fosse, mas não acredito. Pelo menos nos próximos 2 a 3 anos.

A explicação é muito simples: para haver um verdadeiro mercado de reabilitação urbana é necessário, antes de mais, que haja dinheiro para investir. Dinheiro dos investidores e dinheiro dos financiadores. A realidade nua e crua mostra-nos que tal não existe para Portugal, nem hoje nem se espera que venha a existir tão cedo.

Enquanto os investidores não restaurarem a confiança em Portugal não me parece que a reabilitação urbana seja uma realidade. E essa confiança só poderá ser restaurada com muito trabalho da nossa parte mas também com alguma sorte. Tanto de um lado como de outro, tem faltado algo…

Bons negócios (imobiliários)!

terça-feira, 17 de abril de 2012

Financiamento e incentivos à regeneração urbana


Por José Carlos Marques da Silva
Managing Partner da Strategy XXI
Membro do Conselho Consultivo para a Regeneração Urbana da CIP – Confederação Empresarial de Portugal







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A regeneração urbana e a necessidade de se revitalizarem os centros das nossas cidades é hoje um verdadeiro desígnio nacional. Talvez nunca se tenha assistido a uma quase unanimidade, entre os principais actores e agentes, sobre o sentido e a oportunidade que deve ser dada à regeneração urbana no nosso país.

A tal sentimento, não será certamente alheio o facto de se reconhecer, na aposta na regeneração urbana, um conjunto de características virtuosas que a tornam quase incontornável, quando pensamos em contributos para um novo modelo económico e social, de que o país tanto precisa, ancorado nos valores da sustentabilidade e da responsabilidade.

Entre outros, reconhece-se à dinamização do investimento em regeneração urbana os méritos de produzir importantes efeitos multiplicadores na economia, de promover a criação de empregos, em várias regiões do país e não num local especifico, de estimular e valorizar o turismo, a construção, os serviços especializados, a engenharia e a arquitetura, os saberes e ofícios tradicionais, o restauro, a conservação, a eficiência energética, a valorização dos recursos endógenos de base regional, a produção de externalidades positivas, etc. e tudo isto sem aumentar o nosso défice da balança comercial, uma vez que incorpora, fundamentalmente, consumos intermédios e mão-de-obra nacional.

A questão que se coloca é porque não avançará, no terreno, mais depressa a prioridade à regeneração urbana? Já aqui falamos sobre os principais constrangimentos à regeneração urbana entre nós. Analisemos agora, talvez o constrangimento mais importante: o financiamento e os incentivos à regeneração urbana. Nesta matéria, como em quase todas, sem recursos, i.e. sem dinheiro, não há regeneração urbana possível.

Como sabemos o problema do financiamento é dos maiores constrangimentos que a economia nacional se defronta. As fortes limitações no acesso ao financiamento, traduzidas por uma situação que se aproxima, perigosamente, de um ponto crítico de estrangulamento, designado na literatura por credit crunch, não deixam espaço para uma alocação, pública ou privada, significativa (como merecia) para dinamizar investimentos em regeneração urbana.

Os instrumentos financeiros, disponíveis em Portugal para apoiar a regeneração urbana podem, sinteticamente, agrupar-se em:

- Incentivos públicos à reabilitação, ao realojamento e ao arrendamento;
- Programas de apoio ao investimento público do QREN;
- Sistemas de incentivos às empresas e acções colectivas (QREN);
- Produtos financeiros disponibilizados pela Banca em condições protocoladas, incluindo os Fundos de Investimento Imobiliário em Reabilitação Urbana;
- Fundos de Desenvolvimento Urbano (FDU’s), com ou sem apoio complementar no quadro da Iniciativa JESSICA.

O Fundo Jessica

O Jessica é um instrumento de engenharia financeira, criado pela Comissão Europeia (CE) e operacionalizado através do Banco Europeu de Investimento (BEI) e com o apoio do Council of Europe Development Bank (CEDB), mobilizando recursos financeiros do QREN 2007-2013 (FEDER dos PO Regionais e do POVT).

A intervenção assenta na disponibilização de empréstimos, ou na participação no capital de entidades ou fundos para a reabilitação urbana, complementando os apoios dos fundos estruturais ou outro tipo de financiamento, público ou privado, que possa estar disponível. Note-se que não há qualquer apoio a “fundo perdido” por parte deste instrumento financeiro, cuja aplicação em concreto se materializa na criação de FDU.

Num primeiro nível foi criado um fundo de participação (holding fund) português, no valor de 130 milhões de euros, com participação financeira do Estado e dos Programas Operacionais (Regionais e de Valorização do Território). Com os desenvolvimentos posteriores e o envolvimento dos parceiros, BPI, CGD e Turismo de Portugal, foi possível alavancar estes investimentos até 1.000 milhões de euros.

Resulta claro que será preciso muita imaginação, inovação financeira (responsável), uma boa articulação entre os privados e o sector público e sobretudo procurar atrair e contratualizar capitais e linhas de financiamento do exterior, na linha do Jessica Holding Fund Portugal.

quinta-feira, 12 de abril de 2012

Spreads no Crédito Habitação

Deixo-vos hoje um pequeno vídeo com notícia sobre os spreads no crédito habitação.

Antes de mais, o que é um spread? Não é mais do que a margem de lucro do banco. Acima de uma determinada taxa (normalmente um indexante, como a Euribor no caso Português), o banco cobra uma margem de lucro a que se chama spread. Naturalmente que o indexante acrescido do spread não é o custo final do crédito, normalmente acrescerá imposto de selo e outras comissões bancárias, para além de ser necessário observar o período de pagamento de juros.

Com os indexantes em mínimos históricos, a verdade é que temos taxas de juro em valores bastante elevados dado que os spreads hoje praticados pela Banca são muito altos. Os Bancos, com dificuldades em se financiarem no Mercado Monetário Interbancário, e com o financiamento existente caro, têm de repercutir esse custo para os Clientes, nomeadamente, os mutuários de crédito habitação.

Crédito bancário para compra de habitação com maior "spread" de sempre - Economia - Notícias - RTP

Para ajudar a visualizar o comportamento dos spreads, aqui fica um gráfico da minha autoria. O spread médio dos contratos antigos ronda 1 p.p. Já quanto aos novos contratos, encontra-se nos 2,68 p.p. Chamo a atenção para a alteração de comportamento dos spreads, face aos novos contratos, em Janeiro passado. Ainda é cedo para tirar quaisquer conclusões mas poderá esta descida ser justificada pelas melhores condições que a Banca anda a oferecer na venda das próprias casas?


Bons negócios (imobiliários)!

terça-feira, 10 de abril de 2012

O low-cost no imobiliário


Fernando Vasco Costa
Strategic Consultancy
Jones Lang LaSalle






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Praticamente todas as tendências do mercado imobiliário português apontam para a redução de custos.

As poucas movimentações registadas no mercado nos últimos tempos devem-se maioritariamente a renegociações para redução de rendas, maior racionalização de espaços utilizados, concentração de serviços…

Por outro lado assistimos ao aparecimento de novos conceitos apoiados em lógicas de low cost – hostels, escritórios em co-working, novas cadeias de ginásios, etc.

Esta é uma tendência há já bastante tempo sentida em outras indústrias e mercados, em que se extremam cada vez mais os mercados high-end e low cost, com a grande redução do mercado do “meio”, anteriormente maioritário.

Em todas as indústrias o segmento low cost é altamente sofisticado e profissionalizado, de modo a conseguir-se racionalizar ao máximo os custos. Para se obter uma oferta de qualidade ao mais baixo preço é necessário recorrer aos melhores recursos, como forma de garantir os objectivos delineados.

Deste modo não faz sentido cortar nos “soft-costs”, mas sim valorizar a sua importância na cadeia de criação de valor e no objectivo de racionalizar ao máximo os “hard-costs”.

Ou seja, não se deverá “poupar” em (boas) avaliações, (bons) estudos de mercado, em (bons) projectos ou num (bom) project management, que permitem obter um melhor produto, mais adaptado ao mercado e com mais garantias de cumprimento dos orçamentos previstos.

Devemos sim exigir soluções e projectos mais criativos, mais eficientes e que nos permitam obter melhores produtos, mais ajustados à realidade do mercado.

Ora, isto é exactamente o contrário do que se tem feito na generalidade do mercado imobiliário português com a velha história dos “when you pay peanuts, you get monkeys”. Não há milagres…

Neste tempo de crise profunda temos de investir num melhor planeamento, em melhor gestão, em melhores projectos e num melhor controlo de custos. Temos de conseguir canalizar os escassos recursos disponíveis para onde podem realmente acrescentar valor.

Se o problema é a falta de liquidez, temos de ter a criatividade de o conseguir de outra forma, não o fazer será agravar o problema.

Um dos mercados onde penso que irá sentir-se mais esta necessidade é o do Arrendamento Residencial, que é o grande desafio que temos em frente, a Reabilitação das nossas Cidades e torná-las atractivas para Promotores, Inquilinos e Investidores.

Quando sabemos que a maior parte dos potenciais inquilinos apenas terá disponibilidade para pagar rendas a rondar os 400/600€, que tipo de produto poderemos ter disponível nesta gama de preços e que seja rentável?

E é este o desafio com que nos deparamos no mercado imobiliário: como conseguiremos ter preços mais baixos que se adaptem à procura existente?

Na minha opinião, e depois das devidas correcções no valor dos terrenos e imóveis existentes, vamos assistir a uma verdadeira revolução no tipo de oferta que aparecerá no mercado, com redução de áreas totais e dos compartimentos, redução dos níveis de acabamentos e equipamentos, criação de soluções mais polivalentes de utilização de espaços, entre outras.

Não vejo estas alterações como uma fatalidade, muito pelo contrário, vejo-as como uma oportunidade, onde será premiada a eficiência, a racionalidade e, acima de tudo, a criatividade.

terça-feira, 3 de abril de 2012

Chao Fangzi

Ou fritar casas, salteá-las, parece ser o termo encontrado para melhor definir o mercado imobiliário na China. Parece que, pelos vistos, o mercado está a fritar.

Aparentemente, o mercado aqueceu rapidamente, fritou, e de tanto fritar é bem possível que acabe queimado. De acordo com Mao Yunshi, economista chinês, estimativas apontam para uma possível queda de 50% dos preços, resta saber quando. A razão principal por detrás disto é o facto de não haver grandes alternativas de investimento para chineses com muito dinheiro. Compram casas, à falta de alternativas.

Aqui fica um curto vídeo.



Bons negócios (imobiliários)!